O dia da vacina

Na década de 60, o ano eu não me lembro bem, mas nesse tempo eu estudava em um grupinho de madeira que ficava bem lá em cima do morro, no final da Rua Gentil Braga, antiga Vila Franci, o nome da escola era Grupo Escolar Professor Valacce Marques.<br><br>Eu me lembro que o presidente da época era o General Emílio Garrastazu Médici, estávamos na época da ditadura militar, eram tempos difíceis, mas não tenho o que reclamar de minha querida infância. Lembro-me que todos os dias antes de entrarmos para as salas de aula Dona Iraci (a servente) nos conduzia do portão da escola até o pátio em fila indiana, nos dividíamos por classe em várias fileiras, alinhavamos, fazíamos cobertura do menor para o maior, ficávamos em posição de sentido e todos cantavam o Hino Nacional, O Hino da Bandeira e o hino de nossa escola. Todos os dias eram assim, com exceção de uma vez por semana, o dia exato ninguém sabia ao certo, pois eram sempre variados, os serventes ficavam nas portas das classes com um cesto cheio de ovos de pata crus e com uma enorme régua nas mãos. Furavam e davam um ovo para cada um chupar, e ai de quem não engolisse toda aquela meleca. Confesso que era horrível, mas nunca me fez mal porque até hoje a coisa mais difícil é eu ficar doente, mas não é sobre isso que eu quero falar. <br><br>O que realmente marcou a minha vida estudantil foi o dia em que seríamos vacinados contra a paralisia infantil. Foi feita uma grande campanha nacional e em todas as escolas estariam aplicando a vacina. Tomaríamos a vacina com um tal de “revolvinho”, e era justamente nele que estava o nosso problema. Já tínhamos ouvido várias histórias de horror a respeito dele. Diziam que ele não possuía agulhas, e que o próprio líquido furava a pele aplicando a vacina. Contavam que em outras campanhas um garoto, ao ser vacinado, teve o braço e o peito atravessado pelo líquido e morreu com o coração perfurado. Outros diziam que acidentalmente uma enfermeira acionou o mecanismo de disparo e furou os olhos de uma menina que estava a um metro de distância. <br><br>A campanha já vinha sido divulgada há várias semanas e finalmente chegou o dia de enfrentarmos o famigerado “revolvinho”. Tínhamos oito classes na escola e a diretora resolveu vacinar duas classes por vez em cada horário, encerrando assim a campanha na escola em uma semana. Para o meu azar, a primeira classe foi a minha. Sabem, eu não me lembro de muita coisa de minha vida escolar, mas daquele dia em especial e dos três primeiros da fila eu nunca mais esquecerei.<br><br>A vacina ia ser dada na porta da cozinha, e lá estávamos nós todos alinhados na famosa fila indiana, nos sentindo como bois indo para o matadouro. Sabíamos do nosso destino, mas nada podíamos fazer. O pessoal do posto estava se preparando para iniciar a vacinação.<br><br>A Natália, primeira da fila, era uma menininha frágil e delicada, mais parecia uma ratinha. Ela estava segura pelas mãos da diretora, seus lindos olhos verdes estavam arregalados, e ficavam maiores ainda por detrás de seus enormes óculos redondos, seu cabelo todo repuxado para trás, presos com um grande laço branco mostravam suas grandes orelhas de abano, sua pele clarinha destacavam suas finas pernas dentro da saia azul marinho. Esta era a cor de nosso uniforme, calças azuis e camisas brancas. <br><br>O segundo da fila era o Geraldo. Um moleque esquisito, suas enormes sobrancelhas negras emendadas uma na outra, e seus dentes saltados pra fora que nem lhe permitiam fechar a boca direito lhe davam uma aparência cômica, ele mais parecia o cruzamento do Monteiro Lobato com uma fuinha. O Geraldo já estava preso pelas orelhas pela Dona Iraci, uma enorme senhora de cor negra que parecia estar sempre com falta de ar de tão gorda que ela era. <br><br>O terceiro da fila era o Sidnei, mas mais conhecido como Joca. O Joça, por sua vez, já estava todo mijado, eu podia ver as manchas escuras em seus fundilhos e sentir o cheiro de urina porque, eu era o quarto da fila.<br><br>Enfim chegou a hora, a Dona Terezinha, a diretora, uma senhora magra e alta ruim como um fio desencapado, segurava a Natália pelas mãos para dar o exemplo. A enfermeira pediu para a Natália arregaçar as mangas de sua camisa, passou um algodão embebido em alguma coisa em seu fino bracinho, encostou o “revolvinho” em seu ombro e apertou o gatilho. O silêncio foi gélido, estávamos todos estarrecidos e com os olhos arregalados para ver o que ia acontecer.<br><br><br>"Viu, não dói nada”, disse a Dona Terezinha. Mas mal ela terminou de falar a Natália caiu desmaiada. Foi o mesmo que soltar uma raposa faminta dentro de um galinheiro. O pânico estava estabelecido e incontrolável, a correria foi geral. O Joca já estava a uns cinco metros de distância correndo em zigue-zague como se quisesse despistar um atirador de elite. O Geraldo, que quase deixou uma orelha nas unhas da Dona Iraci, corria e gritava desesperadamente. Era moleque pra todo canto correndo e pulando cercas. Naquele dia a vacinação teve que ser cancelada, a única a ser vacinada foi a Natália. <br><br>Na semana seguinte eles voltaram outra vez, só que com uma estratégia diferente. A vacina ia ser dada na porta de cada classe, e os pais ou os responsáveis foram chamados. À medida que íamos sendo vacinados, íamos pra casa. Confesso que quando chegou a minha vez eu estava apavorado, mas nada podia fazer, pois minha mãe estava ali. Após ser vacinado senti um alívio enorme, eu sorria sozinho. Pra falar a verdade eu nem senti a picada do “revolvinho”. Mal chegamos em casa, troquei de roupa e já fui brincar de bola e empinar pipas no campinho. Nem lembrava mais da vacina e do tão temido “revolvinho”. Sabem como é, coisas de criança.<br><br>E-mail: [email protected]