O crime não compensa

Vou falar de um grande amigo de infância, não vou citar nome, crescemos juntos, jogávamos futebol, namorávamos, enfim, tudo que os jovens fazem, até o dia em que ele conheceu uma linda mulher, começou a namorar, e de repente desapareceu do bairro.

Depois de alguns anos, encontrei com ele na Xavier de Toledo, estava num belíssimo carro último tipo, reparei que ele estava com várias pulseiras de ouro, cordões e aneis. Eu até brinquei, falei se ele tinha ganhado na loteria, ele disse que estava numa boa, falei pô, você se deu bem com a nova namorada. Ele riu e foi embora.

Os amigos que encontrava com ele em vários lugares comentavam que ele estava cada vez mais rico. Encontrei com mãe dele, ela falou que a namorada era muito rica, passaram vários anos ele sumiu.

Em 1973, lendo o jornal na primeira página, a notícia em letras garrafais, a polícia prende uma grande quadrilha de assaltantes de bancos e carros de cigarros. A foto dele no jornal foi um grande choque para nós, amigos de infância, filho de família boa, os pais honestos e trabalhadores. À noite, na televisão, no Jornal Nacional, apareceu toda a quadrilha presa, menos a namorada, que conseguiu fugir e nunca foi presa. (Até hoje não consigo entender por que ela nunca foi presa, e o seu nome divulgado). Ele foi condenado a 22 anos de prisão.

Em 1998 encontrei com ele na Rua Haddock Lobo trabalhando de balconista numa mercearia, gordo, velho e trêmulo, ele era alto, forte e muito bonito. Conversamos por muitas horas, perguntei por que ele tinha entrado nessa vida de bandido, ele disse que foi por amor à namorada. Eu falei pô, você ficou 22 anos na cadeia e ela se livrou, nunca foi presa, ninguém sabe o nome dela, por que você não denunciou? Ele disse que não podia falar mesmo depois de 22 anos, eles o matariam.

Estou contando esta história porque eu conhecia o meu amigo desde os dois anos de idade, era um bom garoto, os pais morreram de desgosto. O que uma linda mulher pode fazer na vida de um homem.

Hoje essa mercearia na Haddock Lobo não existe mais, lá é um restaurante italiano. Nunca mais tive notícias do meu grande amigo, não sei se ele ainda vive.

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