Quando ouvia o barulho que anunciava a chegada do grande circo, no início da Rua Antonio Lobo, no bairro da Penha, eu me escondia entre as cortinas da janela do meu quarto. Lá me sentia protegida da parafernália assustadora que o circo representava para mim. <br><br>Era pequena, entre sete ou oito anos de idade, e não gostava do circo, motivos nunca descobri. Apenas lembro que não me causava prazer e nem alegrias, apenas medo.<br><br>Todos corriam pra ver os artistas daquele picadeiro. A rua ficava cheia, pois, para a alegria dos moradores, o circo que chegava teria como endereço quase o final da antiga Rua Itaparica, onde tinha um espaço ocioso e disponível para o grande acampamento.<br><br>Ouvia minha mãe me chamar, e eu, lá de cima da janela, permanecia com os olhos travados pelos meus dedos que funcionavam como persianas, permitindo ver poucas imagens, como o homem que comia fogo; as mulheres com saias compridas coloridas e o rosto coberto pelas máscaras ou pintura, não lembro; os palhaços fazendo brincadeiras, que para mim não tinham graça e alguns animais engaiolados.<br><br>Chegando ao seu destino, o circo logo era montado, e o sofrimento do final de semana já estava garantido para mim, mas cheio de alegria para toda criançada da rua, não tinha como escapar.<br><br>Mesmo amedrontada, ia eu de mãos dadas com meus irmãos pela calçada da nossa casa, mal sabia minha mãe que eu detestava aquele circo.<br><br>O tempo passou e o medo também, mas meu gosto pelo circo permaneceu igual, não chega a ser meu passeio preferido. <br><br>Certa vez, fazendo um curso de "Técnicas de Redação – Um Projeto Lúdico", patrocinado pela Prefeitura Municipal de Educação de São Paulo, dentre tantas técnicas e temas desenvolvidos não faltou o tema mais aterrorizante para mim: o circo.<br><br>Confesso que fiquei com receio de colocar no papel minhas ideias porque sabia que todos iriam escrever sobre suas maravilhas, uma vez que a tendência da discussão que antecedeu a escrita sobre o tema abordou o lado belo e prazeroso do circo, mas no final optei por escrever meu verdadeiro sentimento. <br><br>Para minha surpresa esta redação foi escolhida para trabalhar os contrastes de ideias, não de menos valor, pensamentos e sentimentos. O texto foi muito elogiado pelo monitor do curso, que o incluiu no livro que estávamos construindo e que serviria de exemplo para outras turmas.<br><br>Voltando ao circo dos meus oitos anos, só me resta dizer que, de todas as lembranças, a mais gostosa que tenho era o saco de pipocas cor-de-rosa, que minha mãe comprava e que eu comia com maior prazer e sorriso nos lábios.<br><br>Aproveitando o espaço, quero deixar o meu respeito a todos os profissionais desta área que trabalham nos pequenos e grandes circos, eles sempre chegam para alegrar a população da nossa cidade. <br><br>A vida de nômades não deve ser fácil, principalmente para aqueles que têm família e crianças que precisam frequentar a escola. (Já tive alunos oriundos dos circos).<br><br>Estes artistas da alegria, além do dom que possuem, têm que desenvolver habilidades específicas e necessárias para a profissão que exercem, sempre objetivando a conquista do público.<br><br>Deixo esta pequena homenagem a todos que trabalham ou já trabalharam no picadeiro. Mesmo sem ter afinidade com o clima, reconheço e valorizo este trabalho de muitos encantos e que faz o ser humano exprimir em seu rosto o que há de mais belo: o sorriso.<br><br>e-mail do autor: [email protected]