O Centro deteriorado e maltrapilho

Os flagrantes atuais da vida real nos trás a memória os tempos passados deste centro de São Paulo que era tido como um modelo de cidade Europeia. Para compreendermos melhor esse São Paulo de antigamente se faz necessário que busquemos na história do centro da cidade algumas curiosidades. O grosso do comércio bancário e lojista de São Paulo estava instalado ali, no centro velho e no centro novo da cidade. No velho que compreendia desde a Praça do Patriarca no triângulo da Rua da Quitanda, Rua Boa Vista, Rua XV de Novembro ou indo pela Rua Direita, ou subindo pela Rua de São Bento, entrando na Rua José Bonifácio ou ingressando em qualquer travessa do Largo de São Francisco ou adentrando a Benjamim Constant, todas saindo na Praça da Sé. Naquele tempo, quando as pessoas necessitavam ir às compras, se dizia – Vamos à cidade! Era um jargão popular aceito em todos os bairros e arrabaldes de São Paulo.

Os bairros geralmente possuíam um comércio razoável, porém, insuficiente para atender a grande demanda do consumo de seus usuários. O charme mesmo era ir ao centro da cidade onde se concentravam os grandes magazines como o Mappin, uma loja de departamentos de vendas de roupas em geral, louças, eletroeletrônicos, brinquedos, cama mesa e banho, artigos de perfumaria e cosméticos. O Mappin por assim dizer era a vitrine e a loja de preferência de todos os paulistanos. Outra grande empresa francesa de departamentos era a Mesbla na Rua 24 de Maio, esquina da Rua Dom José de Barros e tinha quase todas as mercadorias, desde botões até automóveis, lanchas e aviões. Ali também era um grande passeio pelo centro comercial de São Paulo.

Outra grande atração do centro da cidade era as Lojas Garbo considerada a loja número um na moda masculina. Ali se comprava ternos, blazer, paletós, calças, camisas sociais e esportivas, gravatas, acessórios e outros artigos. Ela ficava na esquina da Rua São Bento com a Praça do Patriarca, com a denominação de Modas Exposição Clipper onde havia sido implantado o primeiro sistema de crediário no país. Outra referência no centro de São Paulo era as lojas Ducal, uma rede de lojas masculinas de muito sucesso nas décadas de 50 e 60 com a promoção, pois quem comprava um paletó e uma calça ganhava outra de presente e assim ficávamos com duas calças.

Outro passeio dos paulistanos era frequentar o Ponto Chic, uma lanchonete situada no Largo do Paissandu de propriedade do Otilio Cecchini que tinha fundado a casa em 1922, no ano da Semana de Arte Moderna. O estabelecimento era muito chique e elegante daí surgindo o nome. Ficava no térreo de um prédio de três andares, e tinha mesas e balcão em mármore de Carrara, azulejos e cristais importados da Itália. Naquele tempo era frequentado por homens da alta sociedade, muito elegantemente vestidos, que ali discutiam política, arte, economia e esportes. Ali também frequentavam as francesas de "Madame Fifi". Por muito tempo era a reunião de torcedores do Palmeiras.

Foi ali, nesse recinto do Ponto Chic de outrora, que o Casimiro Pinto Neto, um estudante das arcadas do Largo de São Francisco, em 1934 criou o famoso sanduíche Bauru, referência a sua cidade natal, no município de Bauru. Em 1977, por uma ação de despejo (o prédio era alugado) o restaurante fechou, tendo o seu fundador morrido pouco depois. Ali se preparavam outros dois sanduíches: o Rococó (rosbife, aliche, gorgonzola, tomate, pepino) e Seleto composto de rosbife, presunto, tomate, pepino e diversos queijos.

Outra imagem de São Paulo antigo situava-se no Centro Novo, na Rua Barão de Itapetininga, 262, no primeiro andar de um pequeno edifício de quatro andares, que abrigou até fins de 1960 a tradicional confeitaria Vienense, onde o poeta e escritor Guilherme de Almeida, um dos integrantes da Semana de Arte Moderna, mantinha seu escritório frequentado pela intelectualidade da época, sendo a confeitaria Vienense a casa de chá em estilo Art Déco, com princípios esculturais de luminárias e móveis, e objetos com requintes antigos na mais simplicidade de estilo. Era uma mistura de maneira ultramoderna onde a elite paulistana da época costumava se reunir ao som da música do piano e do violino nas habitue tardes após as compras pela cidade.

Para falarmos desse São Paulo antigo, de suas ruas comerciais, de seus teatros, de seus restaurantes famosos, da sua culinária miscigenada do italiano ao sírio-libanês, do português ao espanhol, do japonês ao chinês, tudo isso seria necessário um compendio de várias folhas. Foi por isso que me ative em descrever apenas algumas das várias referências do nosso centro de São Paulo. Depois de uma longa ausência das minhas idas ao Centro da cidade, retornei em uma segunda-feira. Qual não foi o meu espanto e surpresa ao ver o nosso Centro da cidade completamente deteriorado, desfigurado, sujo, maltrapilho, esfarrapado, pichado, estraçalhado pelos vândalos que nela circulam, pessoas indignas de nela viverem, porque não tem o menor respeito por ela que acolhe a todos sem distinção de raça cor ou credo religioso.

O Centro de São Paulo virou uma grande favela a céu aberto. Nas laterais do antigo prédio dos Correios e Telégrafos depois de reformado, nas paredes externas da Avenida São João, deparei-me com um espetáculo triste, degradante, de muitas pessoas acampadas em barracas de lona, nas mais precárias condição de higiene, amontoadas em colchonetes espalhados pelo chão, sem banheiro, sem água para a higiene pessoal, um bando de zumbis maltrapilhos caminhando sem destino pelas ruas do centro. O que foi feito do meu, do teu centro da cidade, outrora modelo de cidade europeia? Um amontoado de lixo espalhado pelas calçadas, uma degradação total do meio ambiente, os prédios quase todos abandonados e pichados, a sujeira espalhada nos cantos das calçadas, os carrinhos de alimentos fumegantes do cachorro-quente sem nenhuma referência da procedência e higiene do alimento, sendo vendidos indiscriminadamente ao público passante; mendigos esparramados pelas praças e jardins, decadência total daquilo que um dia foi o orgulho de todos os cidadãos paulistas e paulistanos que aqui vieram para construir uma vida nova, uma esperança de luz no caminho da existência.

Onde estão aqueles homens e mulheres que fizeram deste centro de São Paulo a história de uma grande cidade? Sumiram? Morreram? Ou talvez, quem sabe, se mudaram para outros lugares mais respeitáveis da grande cidade. Apesar dos esforços de pessoas de boa vontade querendo revitalizar o centro, a batalha parece árdua e incerta. Enquanto não houver políticas voltadas para a melhoria do Estado brasileiro e da população em geral do país, todos os esforços serão em vão. Todo homem, tem direito a dignidade de morar, trabalhar, construir, progredir e sentir-se realizado e feliz. No momento é uma utopia falar e pensar nisso, porém não percamos as esperanças de dias melhores para todos nós brasileiros nesta cidade maravilhosa e acolhedora que moramos e tanto amamos.

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