O centro da cidade de que me lembro: Rua Direita (não tão direita assim) e adjacências

As melhores lojas estavam ali. Ligava (e liga, porque seu traçado não foi alterado pela construção de nenhuma via maior de circulação) a Praça da Sé com a Praça do Patriarca.

Algumas lojas sobrevivem, mas poucas: a antiga Casa Bevilacqua, agora Vitale, as Lojas Americanas. Minhas lembranças da década de 40 me levam a visualizar essas lojas. A Farmácia Baruel, bem na esquina da Praça da Sé. A loteria Casa Luongo ficava na Rua Direita, nº 2.

Na Lutz Ferrando, comprava-se óculos e instrumental delicado. Famosa, confiável, sobreviveu muito tempo.

As Lojas Americanas, conhecidas pelo povo como Casa dos Dois Mil Réis, foi a primeira no seu estilo, diferente para os padrões da época. Muita variedade de mercadorias, muito baratas (no máximo dois mil réis) e distribuídas de forma que pudessem ser vistas facilmente, facilitando a escolha e induzindo à compra. Foi com ela que se começou a desenvolver a mentalidade consumista. Quanta quinquilharia eu comprei lá! Era muito grande, indo da Rua Direita até a José Bonifácio, atravessando o quarteirão com um pequeno desnível compensado com escadas. Foi nessas lojas em que se começou a comer os cachorros quentes, novidades na época.

A Casa Bevilacqua era a loja musical da cidade, com instrumentos musicais e partituras.

Casa Sloper primava pela distinção, fineza e requinte. Vendia luvas, lenços, echarpes finíssimas e bijuteria fina. Para a elite. O oposto das Lojas Americanas, que se dirigia mais ao povo.

A Casa Alemã, vinda da década de 30, teve que mudar de nome durante a Segunda Guerra Mundial para Galeria Paulista. Tinha roupas finas, já introduzindo a confecção. Minha lembrança dessa loja está associada a um vestido que minha mãe me comprou, estilo marinheiro: saia branca de fustão pregueada, bluzãozinho com gola quadrada e rodeada por soutache azul marinho. Foi no fim da década de 30. Eu não tinha nem dez anos. Essa roupa só pode ser comprada porque meu pai ganhou cem mil réis no jogo do bicho, podendo fazer a extravagância de vestir melhor suas filhas. Até chapéu minha mãe comprou. E o casamento do sobrinho pôde ser assistido com pompa e circunstância.

Na Casa Kosmos se comprava roupa de homem: camisas brancas impecáveis, nomes bordados no peito, lenços com monogramas especiais. Era loja para grandes ocasiões. Para o dia-a-dia (no nosso meio social), para comprar cuecas e meias ia-se à Triunfal, na Rua São Bento. Curiosidade: em 1931, uma camisa Bandeirantes custava 32$000 (trinta e dois mil réis).

Tecidos finos eram encontrados na Tecelagem Francesa, onde as pessoas eram atendidas com todo o respeito e cortesia. Trabalhava com tecidos importados, mas foi cedendo em importância para casas que ficavam do outro lado do Viaduto do Chá: as Casas Hasson, na Barão de Itapetininga e Liberty, na Rua Sete de Abril, esta, de dois irmãos judeus, José e Aron Melaned. Às vezes eles mandavam peças de fazenda para a casa de minhas tias, modistas finas, para que a escolha fosse particular, pessoal e sem pressa. Todos se conheciam pelos nomes.

A Casa Bonilha de modas ficava na Rua Direita, na calçada de frente à Casa Alemã. Vinha da década de 20. Perto dela ficava um cinema, o Alhambra, cinema de luxo que minhas tias conheceram porque uma freguesa de costura lhes deu uma entrada para que elas copiassem uma gola do vestido de uma atriz.

Saindo um pouco da Rua Direita, mas ainda fazendo parte desse mundo comercial, já na Praça do Patriarca ficava o Mappin Store, tradicional loja de departamentos, funcionando desde a década de 10. Ficava na Praça do Patriarca, n.º 2, e já tinha o relógio que até hoje sobrevive. Na época da Segunda Guerra Mundial, mudou de nome para Casa Anglo- Brasileira, mas recuperou o nome antigo depois que as coisas assentaram. Mudou-se depois para a Praça Ramos de Azevedo e seu salão de chá no 4º (ou 5º) andar era famoso ponto de encontro. Quando o Mappin desapareceu, levou consigo um dos marcos de São Paulo.

Ainda na São Bento ficava a Casa Genin, onde as senhoras se abasteciam de lãs, linhas e agulhas para seus tricôs e crochês. E no número 34 ficava a Alfaiataria e Confecções Ausônia.

Perto da Rua Direita, na Rua São Bento ficava a Leiteria Campo Belo, que servia um chá muito chique. Fui testemunha disso.

E a Casa Fretin, na esquina da Rua São Bento e Rua da Quitanda, está lá até hoje, vendendo artigos cirúrgicos e de ótica. Resiste impávida a todas as invasões dos inúmeros camelôs.

Na Rua XV de Novembro, 126, ficava a casa lotérica A Preferida.

(Escrito em 2003)