O caso da laranja

 
De coração tenso, eu me preparava para sair. Bem cedo, o sol ainda dando os seus últimos roncos, quase se espreguiçando e enchendo suas bochechas para começar a soprar as nuvens, nos levantávamos para sairmos de viagem. Era tempo de férias. Sairíamos do nosso Cambuci e iríamos visitar os parentes no Paraná.
 
Mal eu acordava com o chamado da minha avó, eu sentia o cheiro do frango vindo de uma panela silenciosa para não acordar a vizinhança. Era necessário, naquele tempo, se levar o almoço embrulhado em uma toalha. Tempos de restaurantes que pecavam pela falta de higiene ao longo da estrada, além de preços nada convidativos.
 
Eu já acordava sentindo uns leves engulhos. A minha avó tinha o hábito de balançar a minha cabeça, dizendo “levanta, bem, está na hora”. Pronto! Mexeu na minha cabeça o dia estaria inevitavelmente perdido. Mas, mesmo assim, vamos embora.
 
Eu saía em jejum, pois o mal estar já tomava conta da minha essência. E a viagem continuava. Eu, calada e apreciando tudo.
 
Para mim, era pura magia perceber aquela geografia, especialmente quando as araucárias começavam a dar os seus sinais. Os novos rostos, o doce perfume das árvores, a alegria de estar indo para um lugar onde eu poderia brincar com liberdade, sem medo e com a gentileza dos parentes.
 
Era comum levarmos junto algumas laranjas. Seria a nossa sobremesa para depois do almoço, aquele frango já frio, envolvido em uma farofa feita em casa. Frango com gosto de férias, de sair de um apartamento de fundo sem nenhuma vista externa… É coisa mesmo do divino! A laranja era a companheira, com gosto de retomada da viagem. Hora do “afinal de contas finalmente”. Laranja foi uma bênção trazida pelos colonizadores portugueses ainda no século XVI.
 
Em São Paulo, o fruto passou a ser cultivado a partir de 1502 em Cananéia, no litoral sul e logo se expandiu para São Vicente, Santo Amaro, Guarulhos e Santos.
 
Os jesuítas Manuel de Nóbrega e José de Anchieta citaram a existência desses frutos nos arredores da Vila de São Paulo de Piratininga, em 1554, em suas cartas à Companhia de Jesus: " Nesta terra, se dão bem arvoredos de espinhos, que vieram de Portugal, como laranjeiras, cidreiras, limoeiros, limeiras e todo ano têm frutos bons sem ser regados, porque o céu tem esse cuidado e é a terra fértil destas árvores que se dão pelos montes e campos (…) e deles se fazem conservas…"
 
Com a vinda da família Real, em 1808, o interesse na produção do fruto ganhou relevância.
Nas obras de vários viajantes, como Auguste de Saint Hilaire e Von Spix, há relatos sobre o cultivo de laranjeiras, cidreiras e limoeiros em todo o território, especialmente na Bahia, devido a produção de laranjas "seleta" e de "umbigo", que eram despachadas em grande quantidade para a capital da Corte.
 
E eu apreciava a estrada, apaixonada pela vida, depois do frango com farofa e a laranja de sobremesa. Era uma promessa de vida no coração antes da composição do Tom Jobim.
E lá vinha o susto: em Ourinhos, na divisa de São Paulo com Paraná, os guardas rodoviários paravam os carros e vasculhavam o porta-malas à procura de laranjas. Isso porque uma doença – não sei qual – estava se alastrando pelos pomares e era necessária a vigilância para que os frutos não contaminassem os seus iguais no estado vizinho.
 
Tínhamos que degustá-las antes de avistarmos o rio Paranapanema. E a viagem seguia, invariavelmente em um fusca, jamais zero quilômetro, buscando os braços e abraços dos parentes, afastando temporariamente a nossa solidão.
 
Éramos felizes em uma simplicidade mansa, de poucos desejos, nenhuma cobiça. O sonho era apenas viver e se colocar no mundo ainda pouco hostil. Com árvores frondosas pela estrada, deliberadamente nos presenteando com uma sombra melodiosa vinda dos bicos dos sabiás.