Casas antigas de grandes dimensões sempre nos remetem a pensar em coisas incríveis, fomentando a nossa imaginação. Recordo-me do tempo em que residíamos na Rua Emilia Paulista, algumas quadras abaixo, do outro lado do córrego, mais precisamente na Rua Prado Valadares, tinha um casarão que fora no passado uma sede de fazenda, uma localidade distante do centro de São Paulo, em uma grande área que teve parte de suas terras loteadas e transformadas em um novo bairro na região do Butantã. Eram os anos 60 e a localidade ainda era pouco povoada.
O prédio que resistia ao tempo estava dentro de um enorme terreno cercado à frente por um muro alto de tijolos à vista, tinha um grande portão de madeira, na fachada da casa uma enorme placa já desgastada, também de madeira, estampava o nome “Estância Polopoli”.
Lembro-me que lá dentro existiam muitas árvores frutíferas, uma piscina e uma grande área gramada. Ao fundo, corria um pequeno riacho rodeado por um enorme bambuzal, que nós crianças embora o achássemos alto nos abastecíamos, diga-se que clandestinamente, de seus galhos para fazermos as varetas nas confecções de nossas pipas. O caseiro não permitia que arrancássemos os galhos e fiscalizava o bambuzal com muito zelo, disparando tiros com sua espingarda de sal a quem se atrevesse a invadir as imediações.
Toda a meninada morria de vontade de entrar naquele lugar para apanhar frutas, mergulhar na piscina e jogar bola no gramado, mas pobres coitados não tinham chances. Parece-me que era residência de um figurão que já não frequentava mais aquele local.
No lado oposto margeando o pequeno riacho, havia uma rua estreita e outro casarão em estilo colonial, também cercado por um enorme muro, casarão este que chamávamos de “casão”. Nós pequenos, ainda em idade tenra, víamos aquele lugar como um mito, um local que nos causava calafrios e, contrariamente do espaço em frente, ninguém sentia a menor vontade de entrar, muito menos passar em frente à noite.
Muitas histórias se contavam sobre o imóvel. Diziam ser assombrado e que almas penadas vagavam pelo pátio e subiam no muro para observar as poucas pessoas que ousassem transitar por ali após escurecer. Pior, os mais velhos confirmavam categoricamente os acontecimentos, afligindo e povoando o imaginário da petizada. Para complicar ainda mais, ali de fato funcionava uma espécie de hospedaria para enfermos e periodicamente um rabecão aportava levando algum defunto.
Passar em frente ou apanhar bambu ao anoitecer era um desafio que poucos moleques tinham coragem de fazer. Com certeza esse moleque não era eu. Mas sempre existe uma oportunidade de testar a coragem de alguém. Incumbido que fora de fazer as pipas encomendadas não tive escolha, desafiei a escuridão e sozinho fui escondido apanhar galhos de bambu para confeccionar varetas para serem usadas nos papagaios.
Me borrando de medo, estava cortando os ramos quando um vento soprou as moitas e, no mesmo instante em que senti algo cutucando minhas costas, um sibilo assustador aterrorizou-me. Sai em desabalada carreira sem ao menos olhar para trás. Quanto mais corria, mais recebia os cutucões e percebi que alguma coisa se arrastava à medida que apertava os passos.
Exausto e já distante do casão, parei e percebi que um ramo do bambu havia se enganchado às minhas costas e a ponta dele acompanhava os meus movimentos dando a impressão que era um dedo a me cutucar enquanto suas folhas se arrastavam no chão no mesmo compasso do meu caminhar.
Na manhã seguinte, todo tagarela mostrei a colheita efetivada, mas não disse a ninguém do sufoco que passara com o galho que tanto me aterrorizou e que agora serviria para confeccionar as varetas.