Fevereiro de 74, meu primeiro Carnaval com algum dinheiro. Não muito, mas enfim, algum dinheiro. E quis estrear em grande estilo: Rio de Janeiro. Um fusca, um motorista neurótico, um japonês coxinha, um amigo maluco e eu. De sexta a segunda, dormimos na praia, dentro do carro, debaixo de marquise; rodamos da Barra a Vicente de Carvalho, baile de subúrbio e boteco em Ipanema. Na segunda-feira, cansei. Chega de humilhação, “simbora” para SP.<br><br>Chego a tempo da última noite de Carnaval no nosso Clube de Regatas Nitro Química. Até então, pelo menos para mim, Carnaval era um coisa meio chata, cujo único objetivo era conseguir uma garota e ficar dando voltas com ela no salão. Claro que as músicas eram maravilhosas e a orquestra do seu Toninho era bem esforçada, mas para banda que para orquestra. Mas sem a garota, só restava encher a cara e curtir as lindas músicas sozinho mesmo.<br><br>Mas naquela terça havia algo diferente no ar. De cara um bordão surgiu: a coisa não está boa. Isso em plena ditadura militar já fazia algumas pessoas pensarem coisas, que nem passavam pela nossa cabeça. Depois no intervalo da orquestra, um grupo ia para o meio do salão e continuava a tocar e cantar.<br><br>Isso já estava acontecendo desde sábado e a coisa começou a pegar. O tema era : Marinheiro Só" e o salão inteiro começou a participar e cantar, apesar de uma tentativa de repressão.Para aquele ano foi só, mas ficou a semente.<br><br>O centro de tudo isso era uma Mesa, no canto direito da entrada, de número 50, onde rolava garrafas de Drurys (meu Deus, quanta dor de cabeça), contrabandeadas para dentro do clube por um cara que eu mal conhecia, mas que iria fazer história na minha vida. Aguardem o próximo e último capítulo dessa história inesquecível.<br><br><br>E-mail: [email protected]