O caminhão do seu Pepino

Moro na Rua Alfândega, no Braz,
Década de 40, ainda um rapaz.
Vizinhos, muitos, sempre em paz,
Seu Pepino, idoso, mas capaz.

Signore Giuseppe, seu Pepino, na intimidade, uma figura ímpar no cenário italo-hispano-luzo e… brasileiro (um pouco), mas paulistanos todos, por nascimento e adoção.

Vizinho da direita, sr. Pedro Zupo, verdureiro do bairro, boníssima pessoa, com esposa dona Isabel, a russa, por causa de seus cabelos vermelhos, polignaneses de Bari, Itália (já falecidos), sete filhos, quatro homens e três mulheres.

Da esquerda, José Violante, descendente de vénitos, comerciante atacadista da Rua Santa Rosa, no segmento de alfafa, milho e demais produtos voltados para alimentação animal. Gentilíssima e educada pessoa, casado com dona Maria, mulher meiga e linda (já falecidos), descendente de espanhóis, com dois filhos, um casal (Helio e Sueli), e a doméstica Antonieta, que ficou com eles até morrer.

Seu Pepino mora em frente a minha casa, casado com dona Rosita, origem espanhola (já falecidos), quatro filhos – três mulheres, Rosita, Puppeta e Carmen, e o Pepito, feirante com barraca de frios, embutidos em geral, o varão é seu auxiliar. Carrega e completa sua carga todo fim do dia, após uma boa cochilada pra se recompor das madrugadas necessárias pra chegar no seu ponto em tempo hábil. Nunca soube em que bairros ele atua. Folga nas segundas-feiras, como é hábito, até hoje, dos feirantes.

A odisséia do seu Pepino e de seu filho é fazer o caminhão, um Chevrolet "Ramona" 1934 ou 1935, "pegar", sem partida automática, na manivela mesmo.

No verão até que não demora muito: duas ou três maniveladas dadas pelo Pepito e pronto, o caminhão começa a tossir, ameaça morrer, expectora, recebe uma golfada de gasolina do pedal do seu Pepino, recupera-se e, na marcha lenta, com um pequeno lastro sobre o pedal do acelerador, aguarda seus ocupante tomarem assento, o que leva, mais ou menos, trinta minutos. Esse tempo varia de acordo com o aquecimento do motor, sobrando o barulho para os moradores circunvizinhos que, prazerosamente, aceitam como forma de despertador de abrangências gerais.

No inverno, o papo é outro. Apesar de a rua ser uma reta, fazer pegar no "tranco" seria uma das soluções, mas quem conheceu o calçamento da Rua Alfândega, nas décadas a que me refiro, sabe que o mesmo foi feito com pípedos, isto é, paralelepípedos, sem o paralelo, formatos totalmente desengonçados e colocados no chão por via aérea, jogados e… onde cai, fica.

O calçamento é tão ruim que não dá pra empurrar o caminhão. Seu Pepino, sacudido e calejado com estes entraves, já sabe, levanta mais cedo ainda do que o normal e recorre a um expediente que não recomendo a ninguém fazer o mesmo: acende uma fogueira pequena, mas o suficiente, bem debaixo do motor pra aquecê-lo. Prevenido por meu pai, Bartholomeu, seu amigo, de uma possível explosão, diz não temer por conhecer esse "gelado e ingrato motor" como a palma de sua mão.

Em seguida tira as brasas com uma pá, manda seu filho Pepito dar na manivela, e não é que o "miserável e ingrato" do motor pega com uma ou duas maniveladas?! Pronto, todos a postos, vamos trabalhar.

Comerciantes, feirantes, verdureiros, jornaleiros, sapateiros etc., todos vizinhos convivendo harmoniosamente num bairro emocionante e deslumbrante como o Braz (com "Z"), numa época, não muito distante, mas o suficiente para nos cobrir de imensa SAUDADE.

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