O Cachorro que Não Falava Francês

Aqui vai mais um relato do meu querido "Matilde", escola lá do Bairro do Limão, onde estudei nos primórdios dos anos 70. Era o começo do ano letivo, no chamado antigo ginásio e, na primeira aula de Francês, a professora nos comunicou que, a partir das próximas aulas, ela só iria falar em francês e não iria traduzir.

Em meio aos nossos olhares desconfiados, ela prosseguiu dizendo que, para se aprender uma nova língua, era necessário treinar o ouvido. Assim sendo, cumpriu o que havia dito e, nas aulas seguintes, era só puro e simplesmente francês.

A aula dela constava de painéis com figuras e letras, cuidadosamente pendurados no quadro negro. Nossa mestra utilizava-se de uma pequena varinha, a qual ela apontava para as figuras e depois para nós, dizendo “repete s'il vous plait”, o que presumíamos que era para repetir o que ela acabava de dizer.

Num certo dia, no meio daquelas inúmeras repetições em uníssono, a aula foi interrompida por uma visita inesperada. Um cachorro muito do serelepe entrou na sala, sem mais nem menos, e começou a passear entre as carteiras, o que causou um certo alvoroço na classe. Muito prontamente, a nossa professora, utilizando-se do seu complexo linguajar afrancesado, batia o pé e tentava expulsar o dito cujo.

Nós ficamos boquiabertos, pois a nossa instrutora, apesar de nervosa pela intromissão repentina, não perdeu em nenhum momento o seu estimado "francês". Entretanto, nosso simpático visitante parece não ter gostado do jeito pouco convencional e nada amigável no qual foi abordado, e logo começou a rosnar e a latir para a nossa eloqüente professora.

Um dos alunos da nossa classe, não me recordo o nome dele, com muita presença de espírito, se levantou, num ato corajoso, para ajudá-la. E simplesmente disse: “Vem cá, Totó, vem, vem”. Foi, então, prontamente atendido pelo irritado intromissor, seguindo pacificamente em direção à porta, mas não sem antes dar uma última olhada para nossa abalada professora.

O mesmo aluno, tentando acalmar os ânimos, tentou dar uma explicação viável ao acontecido, dizendo: “Sabe o que é professora, o cachorro é como a gente, não entende nada do que a senhora fala em francês, só o português!!”.

Imaginem a frustração dela diante daquela inocente confissão pública, em saber que, apesar dos ensinamentos dela, a gente não a entendia. Contudo, os meses se passaram e este fato não a abalou. Chegamos ao final do ano sem ouvir uma única palavra do nosso querido português, mas admito que aprendemos algumas palavras em francês, para o alívio dela e nosso.

No ano seguinte, houve uma reforma no ensino e as aulas de francês foram substituídas por inglês. Infelizmente, nunca mais ouvimos falar desta mestra, com sua didática pouco ortodoxa.

Como diz o ditado: contei o milagre, mas não contei o santo. Mas é porque não me lembro do nome daquela professora.

Ah! E o tal vira-lata nunca mais apareceu naquela aula!!!

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