O Brás e as mamas da Caetano Pinto

O Brás foi um dos bairros que mais se manteve vivo e que mais se faz representar como parte desta cidade imensa que se tornou São Paulo. Qual seria a causa? Que amor é este que nos recolhe de muitas partes deste Brasil e até do exterior para falarmos do amor, da saudade de um bairro pobre, simples, humilde, cortiços, imigrantes de fala errada, cantada, tarrascante, sempre comendo esses e erres? De onde veio esse amor duro, autoritário, que nos fez crescer, estudar, avançar, e ver-nos transformados nesta metrópole fervilhante, pujante, orgulhosa, enorme.

Teria vindo delas, das nossas mamas? Feitas de aço, valentes, guerreiras.

Marcos, da comunidade Eu nasci na Rua Caetano Pinto, descreve com propriedade mamas da Rua Caetano Pinto que bem poderiam ser do Bixiga, da Mooca, do Bom Retiro, estas que deixaram tudo para trás e vieram formar lares depois de um oceano imenso por causa deste sonho dourado, as Américas…

Ele diz o seguinte:

– "Tudo o que sempre precisei saber aprendi com minha mãe. Minha mãe me ensinou a valorizar um sorriso… "Me responde de novo e eu te arrebento os dentes!" Minha mãe me ensinou a retidão: "Eu te ajeito nem que seja na pancada!". Minha mãe me ensinou lógica e hierarquia. "Porque eu digo que é assim e ponto final! Quem é que manda aqui?" Minha mãe me ensinou a dar valor ao trabalho dos outros: "Se você e seu irmão querem se matar, vão pra fora. Acabei de limpar a casa." Minha mãe me ensinou o que é motivação. "Continua chorando que eu vou te dar uma razão verdadeira para você chorar!" Minha mãe me ensinou a contradição. "Fecha a boca e come!" Minha mãe me ensinou sobre antecipação: "Espera só até seu pai chegar em casa!". Minha mãe me ensinou sobre paciência. "Calma!… Quando chegarmos em casa tu vai ver só!". Minha mãe me ensinou a enfrentar desafios. "Olhe para mim! Me responda quando eu te fizer uma pergunta!". Minha mãe me ensinou sobre raciocínio lógico. "Se você cair dessa árvore vai quebrar o pescoço e eu vou te dar uma surra!" Minha mãe me ensinou medicina: "Para de ficar vesgo, menino! Pode bater um vento e você vai ficar assim para sempre!" Minha mãe me ensinou sobre o reino animal: "Se você não comer essas verduras, os bichos da sua barriga vão comer você!" Minha mãe me ensinou sobre genética. "Você é igualzinho ao traste do seu pai!". Minha mãe me ensinou sobre minhas raízes. "Tá pensando que nasceu de família rica, é?". Minha mãe me ensinou sobre justiça. "Um dia você terá seus filhos, e eu espero que eles façam para você o mesmo que você faz para mim! Aí você vai ver o que é bom!" Minha mãe me ensinou religião: "Melhor rezar para essa mancha sair do tapete!" Minha mãe me ensinou o beijo de esquimó. "Se rabiscar de novo, eu esfrego o seu nariz na parede!" Minha mãe me ensinou contorcionismo: "Olha só essa orelha! Que nojo!" Minha mãe me ensinou determinação. "Vai ficar aí sentado até comer toda comida!" Minha mãe me ensinou habilidades como ventríloco. "Não resmungue! Cala essa boca e me diga por que é que você fez isso?" Minha mãe me ensinou a ser objetivo. "Eu te ajeito numa pancada só!" Minha mãe me ensinou a escutar: "Se você não abaixar o volume, eu vou aí e quebro esse rádio!" Minha mãe me ensinou a ter gosto pelos estudos. "Se eu for aí e você não tiver terminado essa lição, você já sabe!" Minha mãe me ajudou na coordenação motora. "Junta agora esses brinquedos! Pega um por um!" Minha mãe me ensinou números. "Vou contar até dez. Se esse vaso não aparecer você vai levar uma surra!" Minha mãe me ensinou sobre a sabedoria da idade: "Quando você tiver a minha idade, você vai entender!”

"Brigado" Mãe… Obrigada mães que forjaram os primeiros paulistanos nos impondo limites, respeito às pessoas e às autoridades, ao patrimônio privado e público, e a responder por todos os nossos atos sem abrirem mão da sua autoridade como mães, mesmo que desse sem jeito rude.

Porque pior é o não comprometimento…

Este tem como consequência a falta de autoridade e a ausência de limites: dentro das casas, nas escolas, nos estádios esportivos, nas ruas, nas conduções, no trabalho, entre pessoas, com as autoridades, com as coisas públicas.

Limites e valores são essenciais à vida em sociedade.

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