Foi um período dos melhores do esporte da nobre arte. São Paulo tinha lutadores que todas as sextas feiras davam espetáculos simplesmente notáveis. O ginásio do Ibirapuera recém inaugurado (25 de janeiro 1957) recebeu grandes platéias, para ver os azes do Box brasileiro, Paulo Sacomam, Paulo de Jesus, Vicentão, Pedro Galasso, Ralf Zumbano e Luis Ignácio (Luizão). Meu ídolo era Paulo de Jesus, que chegou a ficar invicto por muito tempo até pegar um argentino (sempre eles) e tomar uma sova de dar dó em pleno ginásio do Pacaembú, o palco das lutas antes do ginásio do Ibirapuera. Paulo Sacoman era outro que lutava sempre e tinha altos e baixos. Um dia no final do ano 1950, Paulo Sacoman que era sempre manchete de jornal por bater na esposa. Virou crente. Mas continuou lutando. Numa sexta feira ele lutou com um Português bastante fraco. Deu uma surra no lutador Luzitano, que fazia o sangrar. Devido a sua nova religião, Paulo Sacoman se recusou a continuar batendo no cara. Não ia para cima do português e ficou somente a andar no ring. Advertido pelo árbitro, ele apontava para o rosto do lutador sangrando. Como ele não combatia o adversário, o arbitro deu a vitória ao Português, mesmo derrotado por pontos e todo ensangüentado. Foi um escândalo. As lutas se sucediam, foi quando apareceu um negro esguio que trabalhava na rede ferroviária. Bastante musculoso. Alguém achou que ele tinha o perfil de um bom lutador. Era Luiz Ignácio, denominado de martelo negro. Ele estava se adaptando bem ao esporte da nobre arte. Foi numa sucessão de vitórias. Luiz Ignácio foi rápido ao sucesso e já estava fazendo seu nome. Foi campeão brasileiro e sul americano. Um dia, janeiro de 1958, acharam que ele estava na hora de aparecer internacionalmente. Convidaram o campeão mundial dos meio pesados categoria do Luizão, para uma luta no ginásio do Ibirapuera. Archi Moore seu nome. Um dos mais técnicos lutadores de boxe do mundo. Foi uma luta exibição. Longe a idéia de ser uma luta para valer. Isso era covardia. Quando terminou o primeiro assalto o cartunista Sergio de Andrade (Arapuã) fez uma charge mostrada pela TV Record que transmitia a luta, com Luizão pulando de alegria por ter passado pelo primeiro assalto. Basta dizer que no quarto ou quinto assalto, Achi Moore deu alguns Jabs em Luizão, que bambeou as pernas. Vendo que o brasileiro ia cair ele parou. Infelizmente Luiz Ignácio não suportou o ostracismo, e foi visto jogado na rua como mendigo, e na rua morreu, com se fosse um indigente.
Mas as noitadas de Box ficaram sensacionais com um lutador franzino que tinha saído da forja de campeões de A Gazeta Esportiva. Seu nome Eder Jofre. Filho de Kid Jofre, técnico de vários lutadores de categoria do nosso Box. Foi a era de ouro do Box Brasileiro. Eder ainda como amador pegou pela frente outro amador. Tão bom quanto ele, Eder. Um argentino chamado Ernesto Miranda. Quem assistiu a luta disse que o argentino ganhou e os jurados deram empate. Já como profissionais os dois foram evoluindo, e chegaram a campeões dos seus paises. Então veio a disputa pelo titulo sul americano(1960). Eder ganhou por pontos. O argentino contestou e veio a revanche. Nesse dia eu fui com amigos que trabalhavam na radio pan americana. Estava de pé perto do ring. Não tinha lugar para mais ninguém no ginásio. Antes de os lutadores entrar, veio a notícia de que o argentino tinha feito uma coisa muito ruim. Ele, ou alguém de seu Staff, pegou a foto da Cidinha (noiva, depois esposa de Eder) cortou o rosto e colou no corpo de uma mulher nua, e jogou no camarim do Eder. Isto para desestabilizá-lo. Em cima do ring o argentino tomou uma surra, que no segundo ou terceiro assalto, ele se ajoelhou e com a mão esquerda no rosto sentia as dores. Dando o arbitro vitória para Eder, por K.O. Quando o Argentino estava descendo do Ring foi o povo que o agrediu. Não fosse a polícia estar por ali já prevendo o que podia acontecer, ele teria tomado duas surras homéricas.
Em 1972 veio o maior lutador de todos os tempos, na minha opinião. Cássio Clay (recuso Murramed Ali).
Fui ao ginásio, e quando estava no páteo já debaixo da marquise para entrar no ginásio bato de frente com aquele negro alto de mãos enormes, pronto para entra no ginásio junto com seu Staff. Parou na minha frente e fez aquele gesto característico de quem estava pronto para enfiar a mão na cara de alguém. Confesso que quase fui a nocaute só de pensar que aquilo podia ser verdade. Refeito do susto recebi um abraço do grande campeão mundial de todos os tempos. No ring foi um show com ele lutando com mais de três lutadores. Um de cada vez é lógico. Nos anos 1980, inventaram um lutador pesos pesados. Adilson Maguila. Tinha o perfil de um lutador fracassado. Foi até onde deu. Colocaram varias galinhas mortas a sua frente, e ele ia ganhando. Quando começou a pegar pedreira, ia sendo nocauteado. Um dia, com ele já quase no fim de carreira, liguei a TV e o vi lutando contra um argentino bem mais baixo do que ele e até meio gordo. O argentino deu um show de Box. Na hora de dar o resultado da luta, o braço deste brasileiro foi levantado como vencedor. Ouve vaias do próprio público brasileiro. Confesso que não entendi muito bem. Aquilo ficou na minha cabeça por muito tempo. Um dia me encontrei no jóquei clube com Milton Campos, eterno presidente da federação paulista de Box e perguntei a ele o que tinha acontecido naquela luta. Ele disse que os jurados tinham dado a vitória para o argentino por unanimidade. Mas a esposa do lutador brasileiro pegou as papeletas rasgou, e fez os jurados assinalarem a vitória no nosso “grande lutador”. O amor é lindo…