Antigamente, em toda cidade, eram comuns os chamados “bota-telhas”. Aqui na Vila Maria não era diferente. Nas primeiras décadas de existência do bairro, particularmente a partir de 1940, quando ocorreu um verdadeiro "boom" imobiliário na região, era grande o número de construções bairro afora e, consequentemente, também era havia muitos bota-telhas.
O bota-telhas era o ato final da construção de uma casa, mas não era meramente o ato mecânico de cobrir a casa com telhas, mas sim uma ocasião carregada de simbolismos, que começava com a feitura do telhado e terminava com uma bela comemoração festiva.
Naquela época, levas de imigrantes – particularmente italianos, portugueses e espanhóis –, abandonavam os cortiços onde moravam, no Brás e outros bairros já saturados. Iam com destino à Vila Maria Alta, onde esperavam realizar o sonho da casa própria e, definitivamente, fincar suas raízes. Foi também notável, na mesma época, o fluxo de negros vindos do interior do estado, de Minas Gerais e do bairro paulistano da Barra Funda. Pouquíssimos eram ainda os nordestinos.
A pobreza era um fator comum a toda essa gente e o desafio de erguer, no terreno adquirido a prestações, a sonhada casinha para morar, era encarado com dignidade. Eram pessoas afortunadas, pois sua solidariedade era maior do que a sua pobreza. E os irmanava na luta pela sobrevivência.
Eles eram, quase todos, profissionais qualificados, pedreiros, carpinteiros, eletricistas e outros. Tornavam-se amigos e, solidários, uniam-se nos mutirões realizados nos fins de semana para a construção de suas casas. Sem nada cobrar, sem nada exigir, cada um prestava de bom grado os serviços de sua especialidade, independentemente da nacionalidade, religião ou cor da pele do beneficiado.
A feitura do telhado era acompanhada por todos com muito interesse. Era uma etapa especial do processo construtivo e assinalava o final da obra, embora o acabamento só viesse ser feito com o tempo.
Para o dia festivo do bota-telhas eram convidados amigos, vizinhos e até penetras e bicões eram admitidos. Uma farra! Todo o trabalho de cobertura era realizado em uma única manhã. Alguns, convidados ou não, trabalhavam ativamente; outros, nem tanto, uma vez que a mão-de-obra era abundante e o que contava mesmo era a festança.
Enquanto os carpinteiros (meu pai era um deles) faziam o madeiramento, as mulheres tratavam de preparar os quitutes: sanduíches, docinhos, salgadinhos, etc. Concluído o madeiramento, rapidamente começava a colocação das telhas. Esta operação era realizada quase como um ritual, pelo significado profundo que tinha para o casal e pela carga emocional que neles despertava. As telhas, de mão em mão, passavam da pilha para o topo do telhado. Colocada a última peça, alguém fornecia um ramo de um arbusto qualquer ao homem que ainda se encontrava no telhado e ele o fixava na cumeeira, sacramentando a conclusão do trabalho. O casal, feliz, abraçava-se e no seu semblante podia-se ler aquilo que, naquele momento de emoção, não podiam expressar por meio palavras: "Realizamos nosso sonho, temos um teto para nos abrigar."
Nunca me explicaram o significado do arbusto colocado na cumeeira, mas quero crer que no verde da planta estava, simbolicamente, anunciada a esperança da realização de novos sonhos.
A descida do último homem do telhado dava início à esperada segunda etapa da festa, os comes-e-bebes: sanduíches e salgadinhos para todos, malzebier para as mulheres, tubaína, refrigerante de frutas para as crianças e, para os homens, caipirinha e muito chope gelado. O chope era encomendado ao popular Marcelino Cervejeiro, que o transportava até a obra no seu carroção de quatro rodas, tão conhecido pelos “vilamarienses” de então.
Assim, com esta festa, mais um lar vinha juntar-se à grande família da “vilamarienses”.
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