O bonde

Sou do tempo em que se andava de bonde na cidade de São Paulo. E me lembro que era uma delícia!

Eu pegava o bonde sempre que ia à casa de uma tia que morava em Santo Amaro e havia trechos em que ele corria muito pelos trilhos.

Uma das coisas que me lembro era que o motorneiro trabalhava de uniforme azul marinho e usava quepe. No frio usava um casaco mais comprido da mesma cor. O cobrador viajava de lado e havia uma catraca, mas ela já era coisa da modernidade. Antes eles caminhavam pelo bonde segurando um monte de notas para o troco. De vez em quando, numa das paradas subia um fiscal que ia picotando as passagens que o cobrador entregava aos passageiros.

Havia muitas linhas pela cidade e lá no centro eles faziam ponto na Praça João Mendes. Dependendo da linha havia um bonde que puxava um outro a reboque e assim ele carregava mais passageiros. E tinha o bonde aberto que quando lotado a gente viajava com os pés nos estribos, quase dependurados. Muitas vezes a segurança era o cotovelo de um outro passageiro.

O tempo foi acabando com os bondes e a última linha já não ia até a Praça João Mendes, aí até o Largo Ana Rosa e de lá para Santo Amaro. Eu já era adulto com meus 18 ou 19 anos e pegava sempre o último bonde para ir para casa, já que nessa época eu morava em Santo Amaro. Era uma beleza e uma rapidez, pois o trajeto era uma reta só que vinha desde a Rua Conselheiro Rodrigues Alves, Avenida Ibirapuera e Vereador José Diniz e, nesta, só o bonde passava.

O inconveniente era quando havia um acidente envolvendo um bonde, pois os que vinham atrás não podiam passar. De vez em quando, a cordinha que prendia o cabo nos fios também se soltava e o motorneiro tinha que arrumar. Mas o pior era quando faltava energia elétrica. Aí a cidade parava por causa dos bondes. E foi essa a desculpa que deram para acabarem com eles, mas conservaram os ônibus elétricos, esses que usam suspensórios. São poucos, é verdade, mas não são poluentes, assim como os bondes não eram.

Bonde acabou virando sinônimo de um monte de coisas ruins, inclusive as mulheres feias eram chamadas de bonde. E não sei por que, pois os bondes sempre foram bonitos.

Eu gostava quando meu pai dirigia seu carro sobre os trilhos do bonde. O carro deslizava, era perigoso e proibido, mas era uma delícia. Às vezes eu tentava essa proeza com a bicicleta, mas era difícil, escorregava muito e a gente ficava sem freios.

É uma pena que não existam mais bondes rodando por São Paulo, mas quando assisto a um filme americano cuja história se passa em São Francisco, para mim, o astro principal é sempre o bonde.

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