Todo dia era a mesma coisa. O bonde Barra Funda descia a rua do mesmo nome e parava no ponto que ficava na esquina da Lopes de Oliveira, depois seguia, passava pela Brigadeiro Galvão e, adiante, encontrava a Praça Marechal Deodoro. Ela estava sempre atrasada. Subindo a rua, avistava o bonde chegando e então corria, o salto fino dos sapatos batendo nos paralelepípedos, entrando às vezes nos buracos, mas lá ia esbaforida, não podia perder a hora (ah, o relógio do ponto…). Ele, magrinho, modestamente vestido, mas sempre de gravata, também pegava no mesmo horário, só que descia antes, perto do Largo Santa Cecília, onde ela ia às vezes fazer compras na Clipper. Os olhares, a princípio muito de esguelha, iam se repetindo e ela não sabia bem o que sentia quando se encontravam. Ah, esses olhares de antigamente… Mas a verdade é que sempre havia uma dorzinha quando um ou outro perdia o bonde. Naqueles tempos remotos, demorava-se muito para engatar um namoro, ao contrário de hoje! Até que um dia, ele a cumprimentou, com um sorriso tímido. Ela corou, como acontecia com as mocinhas daquelas priscas eras. E, a partir de então, durante alguns dias, a ansiedade foi crescendo, à medida que ia chegando a hora de subir a Barra Funda, o coração saltando da boca pela pressa de chegar (não mais pelo relógio do ponto…).<br>E agora, passado tanto tempo (e bota tempo nisso!) ela voltou a subir a Rua Barra Funda, já no seu belo carro e com os cabelos embranquecidos. Há anos que se mudara do bairro, para longe, até no Brooklin fora morar quando se casou! E, chegando naquela esquina, onde tantas e tantas vezes tomara o velho e falecido bonde, o coração apertou-se quando a memória lhe trouxe a cena daquele dia frio e garoento. O bonde parado, e no chão, rodeado de gente compungida, jazia o corpo exânime, o sangue-rubi tingindo o ramalhete de cravos, a face ainda guardando o sorriso tímido. E então restou, para sempre, a imensa tristeza e a saudade do que poderia ter sido e nunca se realizou…<br><br>e-mail da autora: [email protected]