Eu morava na Rua Juvenal Parada na Mooca, quase esquina com a Rua do Oratório. Meu pai além de trabalhar na Companhia de Armazéns Gerais Prado Chaves na Av. Henri Ford, era também presidente de um clube de futebol de várzea chamado Portuguesinha da Mooca (meu pai era descendente de italianos, nada a ver). Esse clube ficava na Rua do Oratório, a menos de 100 metros da minha casa, num campo muito grande e com vários barracões de madeira onde também eram realizados os bailes de carnaval e reuniões dos sócios.
Era um pequeno clube de bairro e tinha um zelador que se chamava Pirim, eu sou o caçula de três. Ezio meu irmão mais velho, Ricardo falecido e eu. O Pirim para manter a grama do campo de futebol sempre aparada mantinha um bode grande preto e várias cabritas para darem conta do serviço, já que não existiam aqueles tratorzinhos de cortar grama… e outra, era time de várzea não tinha tanta grana assim…
Nessa época eu tinha algo em torno de quatro anos o Ricardo nove e o Ezio onze. Eles mais velhos e mais malandros me levavam no campo da Portuguesinha para brincar, mas na verdade era para andar no bode do Pirim. Só quando eles sabiam que o Pirim não estava lá porque ele era muito bravo. Numa dessas vezes só eu que andei no bode, como se fosse um cavaleiro.
Senti-me um verdadeiro Paladino do Oeste. Como o bode era muito grande para os meus quatro anos, dois seguravam o bode pelo chifre e os meus irmãos me colocavam em cima. Até que o bode não era tão bravo (o Pirim era mais…), mas minha mãe e meu pai já haviam proibido essa aventura…
Imagine aquilo para cinco ou seis moleques, andar de bode todos com a imaginação num Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Zorro e outros heróis cavaleiros da época: era o máximo!
No final daquela tarde de verão entrei sozinho em casa, pois meus irmãos haviam ido brincar em outras paradas, minha mãe sentiu o cheiro!! – "vocês foram andar no bode do Pirim de novo?” Com todas as letras… não tinha como negar. Eu estava o próprio bode de tão fedido. Eu realmente não lembro muito bem se apanhei, mas uma cena daquele dia ficou marcada na minha mente.
Eu e meus irmãos, nus, no quintal de casa, tomando banho de esguicho e minha mãe nos esfregando com sabão em pedra e uma escova de piaçava que ardia só de olhar para ela. Talvez uma surra daquelas, fosse melhor. Era Fevereiro de 1955.
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