O Barbeiro Erudito

Estava na Rua Rego Freitas que liga a Rua da Consolação ao Largo do Arouche. Entro no salão para cortar o cabelo às duas da tarde.

Apenas duas cadeiras. Assim que me acomodei, o barbeiro, senhor com seus cinqüenta anos, cabelos com algumas cãs e de óculos manuseou alguns LPs e colocou um deles para rodar num acanhado toca-discos, sobre uma pequena mesa.

Surpreendi-me com os primeiros acordes. Mozart. Esperava algo como Isaura Garcia, Ângela Maria ou Demônios da Garoa e ouço Mozart numa barbearia.

Paz e tranqüilidade no ambiente. Nada de conversas fúteis, comum nesses lugares. Nada de maledicência, futebol ou política. Foi extraordinário ouvir Mozart numa pequena barbearia no centro de São Paulo às duas da tarde.

Manifestei minha surpresa ao Sr. Amadeu, esse era seu nome, que entusiasmado, discorreu com conhecimento sobre Bach, Beethoven, Chopin e outros, dando verdadeira aula sobre música erudita.

Fiquei boquiaberto com sua cultura musical. Maravilha!

Serviço pronto despedi-me. Entrei no meu carro, liguei o som e lá ainda estava o K7 inacabado com Dick Farney cantando "Alguém como tu". Filosofei: Mozart será sempre ouvido; sua música é eterna, mas até quando Dick Farney será lembrado?

Os anos se passaram, a idade pesa, meus cabelos embranqueceram, mas até hoje sempre que vou apará-los, lembro-me dessa passagem e fico à espera do Mozart distante, que nunca mais reencontrei…

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