O bar do "Ze Felix" – Corinthiano roxo

Essa história de minha infância, remonta aos idos de 1986. Se passou no Jardim Guaraú, bairro simples do subsdistrito do Butantã, próximo ao Km 15 da Rodovia Raposo Tavares e do Cemitério Israelita. Desde garoto, devido a religião de meus pais – evangélicos – não tínhamos televisão em casa. Nossa diversão, minha e de meus irmãos Doga e Waguinho, era ir ao Bar do Zé Felix diariamente.<br><br>Tinha 12 anos e pontualmente acordava às sete da manhã, tomava o café da manhã em casa, pãozinho com requeijão e o irrecusável cafezinho preto. Quando o relógio marcava oito da manhã, saía de casa, atravessava a rua e ia ao bar.<br>- "Bom dia seu Zé".<br>- "Bom dia Julinho", como me chamava…<br>- "O Coringão ganhou ontem, mas o peixe podre perdeu”, referindo-se ao meu time, o Santos.<br>- “Tem uma vaguinha lá, se você quiser, eu dou jeito e você vira corinthiano.."<br>- "Nada seu Zé, lembra do Serginho Chulapa em 1984? Matamos o Coringão, freguesia…"<br><br>E assim era todo dia. Seu bar era repleto de quadros dos campeonatos ganhos pelo Corinthians; O Paulista de 77, 79, 82 e 83. Diariamente eu lia a Gazeta Esportiva de graça e esperava o Tim Maia chegar, o Gervásio, o Gordinho e todos os amigos…<br>Ali tomávamos Tubaína, comíamos Ebicen, salgadinho de camarão e jogávamos dominó e muita conversa fora. Sem contar os jogos de bola, descalços na rua. Muitas vezes, com o calor, a pele da sola do pé ficava "na carne". Nessa época até o duro inverno era gostoso, pois fazíamos fogueira na rua e comíamos batata doce. O dinheiro vinha de uns trocados e dos fios de cobre que procurávamos no chão, pelas ruas, nos bairros do Guaraú, Dracena, Jaqueline, Alvorada e Rio Pequeno.<br> <br>E o gostoso era jogar bola no Campão. Na década de 80 a periferia era repleta de campos de futebol, dizimados na década seguinte pela especulação imobiliária. O Zé Felix, baiano de Juazeiro do Norte, tinha 56 anos e era daqueles baianos trabalhadores. Abria o bar às 8h00, parava uma hora para o almoço e logo voltava, ficando até 21h00. Sua esposa, dona Prosperina, o ajudava fazendo jogo do bicho e o velho trabalhava duro, inclusive, naquela época poucas pessoas tinham telefone e iam até o seu Zé ligar para sua terra. Acabava saindo mais barato do que ligar pelo "orelhão". E o velho ganhava alguns trocados assim e ia levando a vida.<br><br>Mas você queria ver ele bravo era falar mal do Coringão dele. Cansei de vê-lo “botar muitos para correr”, com uma faca na mão. Meus irmãos viraram corinthianos por causa de seu fanatismo. E se o cara bebia e não tinha dinheiro para pagar, o velho ficava furioso. Não gostava também que a mulher fosse buscar o pinguço no bar. Homem que é homem manda em casa, lugar de mulher é pilotando fogão, dizia o velho…<br>E assim eu passava minhas manhãs; lia a Gazeta Esportiva e o Estadão, tomava Tubaína, jogava bola descalço, na rua, e às 11h00 ia pra casa tomar banho, almoçar e ir ao colégio. Dona Elzi, minha mãe, capixaba e neta de italianos, era um doce de pessoa e falava: “Filho, bar não é lugar pra você…”<br><br>Mas não tinha jeito, era muito gostoso mesmo e difícil segurar a molecada. Ainda assim, em razão da excelente educação e criação de meus pais, nunca sequer fumei cigarro ou experimentei bebidas alcoólicas. Meu pai, seu Duílio, mais velho dos homens de uma família de sete irmãos, era rigoroso. Veio do Paraná para São Paulo em 1968, fugindo da penúria da roça, onde a família trabalhava para comer e olhe lá. Arrumou emprego na ABC Rádio e Televisão, na Cardeal Arcoverde, em São Paulo e depois trouxe toda a família.Lá conheceu minha mãe, Dona Elzi e logo se casaram, em 1973, sendo que nove meses depois, em junho de 1974, eu viria ao mundo.<br><br>Tendo estudado até a quarta série, Seu Duilio saiu da ABC e conseguiu um trabalho como Almoxarife no Brás, numa empresa chamada Peter Murany, uma indústria que ficava na Sampaio Viana e fabricava latas de sorvetes. Saía de casa às 5h00, para chegar lá às 8h00. Pegava o ônibus da CMTC com sua bolsa e sua marmita. Com essa vida dura, nos criou, nunca deixando faltar nada em casa. Dona Elzi, minha mãe, um doce, uma santa que jamais deixou sair de sua boca uma palavra maldizendo alguém. Nasceu em Baixo Guandú, Espírito Santo, descendente dos italianos Pirolla de Treviso, sempre foi a companheira simples e humilde nos criou; os três meninos que muitas traquinagem faziam.<br><br>Uma pessoa pura, terna e humilde. Talvez pelo trauma de ter o pai assassinado numa disputa por terras em Baixo Guandú, quando tinha sete anos. O maior exemplo dos dois foi nunca terem discutido ou brigado na nossa frente. Sempre resolviam seus problemas a dois…<br>Assim cresci, obstinado a estudar e ter uma profissão, de modo a retribui-los por tudo. Ou dar a sorte de ser jogador de futebol. Joguei no famoso “Pequeninos do Jockey” quando garoto. Gostava de atuar como ponta-direita velocista, mas confesso que era apenas um jogar esforçado. Como todo garoto de periferia, sonhava em ser um jogador profissional e mudar minha vida e da minha família. Mas era apenas um sonhe e resolvi então estudar. Muitas dificuldades passei e, pelo fato de ter estudado em escola pública, era necessário fazer Cursinho. A base era muito fraca. Física e Química eram verdadeiros enigmas.<br><br>Então, em 1993, estava trabalhando no Restaurante de Comida Chinesa LIG-LIG da Cardoso de Almeida, em Perdizes. E pelo fato de trabalhar das 11h00 às 15h00 e depois das 19h00 às 23h00, inclusive aos finais de semana, era impossível estudar. Pedi as contas, vendi a moto DT 180 e com as economias fiz a matrícula no Objetivo de Pinheiros. Estudava em casa umas quatro horas e à noite ia para o pré-vestibular. Quando veio o mês de setembro, radicalizei e passei a ir ao Cursinho de manhã e à noite, todo dia, para reforçar o aprendizado. Como santista ferrenho, cansei de recusar os convites para ir ao Morumbi, Pacaembú ou Vila Belmiro, priorizando só os estudos.<br><br>Desde o tempo de garoto, graças aos jornais lidos no Bar do Zé Felix, sabia que era necessário entrar numa faculdade boa, pois isto ia me garantir um emprego numa empresa de primeira linha. Em junho de 1995, fui acordado pelo Seu Duilio com a Folha de São Paulo na mão, meio sem jeito, me dando os parabéns. Tinha sido aprovado em Economia no Mackenzie. Fiz o curso com afinco e já no primeiro ano consegui um emprego na Credicard, na famosa Ipiranga, esquina com a São João. Por lá fiquei 4 anos e a empresa custeou 50% do curso, ajudando muito. Em 2000 eu me formei e fui escolhido orador da turma. Após meu discurso, fui elogiado pelo paraninfo, Magim Rodriguez, à época presidente da AMBEV, deixando meus pais muito orgulhosos. Também em 2000 entrei no Itaú, que também custeou 70% da pós-graduação em Finanças, no IBMEC. Lá estou até hoje, atualmente como Gerente Geral.<br><br>Hoje resido no Morumbi, próximo ao Parque Burle Marx, com minha esposa Daniela e o torresmo, um llasa apso de 1 ano. Adoro esta cidade, onde consegui minha formação, conheci minha esposa e casei-me. Pretendo fundar uma ONG voltada para a Educação, para apoiar jovens carentes, através da formação e cessão de bolsa de estudos para ingressarem em boas universidades.<br><br>Quantos talentos não existem em nossa periferia, apenas aguardando uma oportunidade?<br><br>