Esta história é verídica e aconteceu em meados dos anos 80 em São Paulo.<br><br>Jarbas era uma pessoa muito simples, porém observador e atencioso. Sua profissão era mecânico de autos. Já com mais de 35 anos de idade havia feito vários cursos de aperfeiçoamento, trabalhava numa grande oficina no bairro do Braz em São Paulo.<br><br>Na manhã de uma quinta-feira de cinzas, após quatro dias de folgas devido ao carnaval, ao entregar a relação de peças necessárias para o termino do reparo que fazia em um veiculo ao encarregado pelo almoxarifado, recebeu ordem para que se dirigir até uma autopeça da Rua Barão de Campinas, em companhia de outro funcionário de nome Rivair, para realizar a compra de algumas peças que faltavam. Num Fusca, ele ia no banco do passageiro enquanto Rivair dirigia. Os dois sabiam de antemão que iriam sofrer no trânsito lento do centro de São Paulo, mas não esperavam que daquele dia eles fossem esquecer.<br><br>Ao iniciar o deslocamento o motorista ligou o rádio e sintonizou a Rádio Capital, cujo horário transmitia o conhecidíssimo programa de Afanazio Jazade. Enquanto ouviam o programa conversavam e comentavam sobre o que ouviam.<br><br>Em determinado momento o radialista conta que um cidadão de nome Gentil, morador na Av. Nove de Julho no centro de São Paulo, estava desaparecido desde o sábado de carnaval. Segundo ele a pessoa desaparecida havia feito um anúncio classificado em um grande jornal onde pretendia vender um auto Chevete Hatch. Que no sábado apareceu um rapaz interessado em comprar o veiculo e de cara gostou do carro. Depois de uma verificada superficial o mesmo pediu para dar uma volta com o carro para certificar-se de que não havia nenhum problema mecânico, no que foi atendido prontamente. Antes de saírem o dono do carro entrou em seu apartamento, apanhou seus documentos, avisou a esposa que ia sair com o pretenso comprador e os dois saíram para dar a tal voltinha. Por sugestão do comprador ele próprio dirigiria o carro. Desse momento em diante ninguém mais teve notícias dos dois, eles estavam desaparecidos.<br><br>Enquanto a história é contada Afanazio vai informando sobre a cor do veiculo e das letras e números da placa. Conta também que ao ser rastreada a conta bancaria de Gentil foram encontradas folhas de cheque manchadas de sangue em lojas onde foram feitas algumas compras nos últimos quatro dias.<br><br>Tanto Jarbas como Rivair ouvem com atenção a triste história e o único comentário feito pelo mecânico ao ouvir as informações foi sobre as letras das placas. Ele observa que as letras eram as iniciais de New York. Naquele tempo as placas ainda não tinham a terceira letra como as de hoje.<br><br> Ao chegar em frente à autopeça uma única vaga está disponível como se estivesse reservada a eles. O motorista chega a comentar sobre a sorte de poder parar bem em frente à loja. Assim que o carro é desligado o mecânico diz ao motorista:<br>- “Rivair olha o carro que o Afanazio está procurando aí na nossa frente. <br>E ele responde: <br>- “Já pensou se fosse mesmo, a gente ia ficar famoso. <br>E o mecânico diz:<br>- “Eu não estou brincando não, o carro é esse mesmo eu não tenho nenhuma dúvida, olha o New York das placas. E por mais incrível que pudesse parecer o veiculo procurado pela polícia estava estacionado na frente dos dois.<br><br>Os dois descem do carro. O mecânico dá uma olhada de relance no carro e pelo vidro da porta do passageiro vê que o banco está com o encosto deslocado para a frente cobrindo o assento e coberto de confetes e serpentinas, mas mesmo assim nota respingos de sangue no painel e no para-brisa. Ele entra na loja pede para usar o telefone e avisa a polícia.<br><br>Tudo é feito em sigilo, ninguém da loja fica sabendo. Depois, enquanto fazem a compra das peças, prestam atenção do que acontece na rua. Bem em frente á autopeça existia uma loja do Mapim que era especializada em acessórios de veículos e material esportivo, (essa loja do Mapim tinha duas entradas, uma na Rua Barão de Campinas e a outra na Av. São João) e era lá que estava o procurado pela polícia.<br><br> Assim que o mecânico telefona para a polícia um investigador se dirige para um ponto de ônibus a menos de 20 metros do carro, enquanto outros dois ficam do outro lado da rua fazendo cobertura. A Terceira Delegacia de Polícia fica a menos de 100 metros do local, na Rua Aurora. Não demora e lá vem um rapaz impecavelmente vestido de terno e gravata, sapatos brilhando e usando óculos de armação fina. Ele esta com as mãos cheias de pacotes e tudo comprado no Mapim com o dinheiro de sua vítima. Ele se dirige para a traseira do carro e quando tenta abrir o porta-malas, recebe voz de prisão. Não esboça nenhuma reação e é algemado rapidamente.<br><br>Em seu poder estão várias identidades falsas além de talões de cheques de várias pessoas. Na delegacia ele informa ter matado o proprietário do carro no sábado de carnaval. Assim que eles saíram com o carro disse ao proprietário que precisava pegar uma estrada para ver se carro estava bom mesmo. Ele sugeriu então que fosse a Castelo Branco, a princípio o dono do carro não gostou, mas acabou concordando. Ao se aproximar de um rio ele sacou um revolver deus dois tiros no peito do dono do veiculo, parou no acostamento e jogou o corpo no rio. Havia passado o carnaval se divertindo e gastando todas as folhas de cheque de sua vítima. Posteriormente soube-se que seu pai era um médico e sua mãe uma pedagoga.<br><br>O mecânico soube dos detalhes da prisão ouvindo o final do programa no rádio do veiculo em que trabalhava. Como prêmio pelo feito Jarbas recebeu os parabéns dos próprios colegas de trabalho e um aperto de mão do patrão.<br> <br>No dia seguinte ao cumprimentar o amigo Rivair pela manhã disse a ele:<br>- “Riva descobri mais um detalhe sobre o bandido de ontem, ele é canhoto.”<br> Rivair admirado perguntou como ele havia chegado a essa conclusão, e ele respondeu:<br>- “Se ele estava dirigindo sentado do lado esquerdo da vítima jamais conseguiria dar dois tiros em seu peito com a mão direita. E realmente fazia sentido.<br> <br><br>E-mail: [email protected]