Existe uma música que aprendi a cantar num tradicional colégio religioso de Florianópolis, no qual lecionei por 25 anos consecutivos. O meu filho cantava o refrão sozinho mesmo, com ânimo refinado, dentro de casa. Os alunos também se envolviam na doçura daquela melodia e iam acompanhando com palmas orquestradas:
"A vida é caminhar
Sou peregrino do amor vou semear
A alegria desse mundo há de vir
Eu não me canso de cantar…”
Muitas vezes eu quase me perdi na caminhada, sentindo a cruz grande e pesada demais para os meus ombros ainda jovens. Quantas vezes me senti confusa no meio do barulho… Ah! O barulho! Coisa insuportável e insana para ouvidos e alma sensíveis! Barulho, vozes emaranhadas sempre me provocaram confusão, um desespero que nem sei como pude controlar e disfarçar ao longo dos anos, tantos anos… Perdi-me nas complicações emocionais que o stress extremo provoca, nas noites dormidas homeopaticamente, um pouco em cada cômodo, procurando paz enquanto o sol teimava em ficar passeando pelo oriente. Pior: o lidar com a falsidade, o falar mal, o arrastar tapetes, coisa das serpentes vis. Chorei muitas frustrações, desencantos, desencontros com o despertar. E a solidão! Quantas vezes me senti só. Rigorosamente só! E chorei doído, com lágrimas grossas pelos quilos de sal que me jactavam dos olhos e o rosto redondo do inchaço da solidão. Abrir portas, como? Eu só via paredes…
Um anjo, distante anjo, de cabelos brancos e macios pelo acúmulo de sabedoria, com pés paulistanos e alma universal, resolveu me dar uma mãozinha, um estímulo para partilhar "causos", memórias, passados e presentes sem nenhuma vergonha pelos erros cometidos. Como quem não quisesse nada, o anjo chegou meio anônimo, assobiando, parece até que andando devagar com as mãos para trás e resolveu gastar um tempinho comigo… E começou a ler as minhas memórias.
A cada leitura ele se mostrava atento, cuidadoso nas palavras, numa gentileza tão exacerbada que achei muito estranho no início. Eu não seria merecedora de tanto.
Essa pessoa, na sua generosidade musical, compassada, fraterna e angelical passou a não perder um texto meu publicado no SPMC. E acompanhava os textos dos demais colegas memorialistas com tal solicitude e respeito que, na sua ausência, o sentimento de incompletude logo se manifestava.
A cada leitura, um comentário amoroso e cordial, me aceitando, me compreendendo, sutilmente fazendo parte da minha caminhada, pois "a vida é caminhar".
Obrigada, Modesto Laruccia. O senhor tem sido mais que um companheiro exemplar e ímpar nessa magnífica viagem que é viver e contar casos. O senhor tem sido um amigo inseparável e constante desse grande número de memorialistas que esbanjam amor por São Paulo, com seus casos interessantes, alguns com momentos muito felizes, outros contam suas perdas, os amores que passaram, as frustrações muitas vezes embaladas com lirismo. Casos dos bairros, do seu Braz, do nosso Bixiga, do nosso Cambuci… De toda essa cidade universalista e plural.
Mais uma vez, Sr. Modesto, muito obrigada. O senhor virou um anjo virtual – provavelmente o primeiro anjo verdadeiro na sua totalidade amigável e fraternal da história do mundo cibernético. E como tem me ajudado a vencer e a repensar as passagens preciosas dessa escola chamada vida…
Obrigadíssimo a todos os meus fieis leitores, que marcam presença amorosa no meu coração.
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