O andarilho da paulicéia

Era um dia 31 de dezembro de 1964, dia da corrida de São Silvestre, aquela corrida charmosa que se iniciava as 23,55 para que os atletas chegassem à vitória na virada do ano. Eu ia logo cedo para o Anhangabaú. E para matar o tempo, ia ao cinema, ou então aos bares ou restaurantes até chegar à hora da corrida. Havia uma dúvida por parte de muita gente. Ir até a Casper Libero, ou ficar ali pelas proximidades do viaduto do Chá. Pois era um dia que sempre tinha alguém que se atirava do viaduto indo se estatelar no asfalto. Era uma coisa estranha, ir ao centro ver alguém se suicidar. Mas era uma verdade, pois nesse dia próximo a meia noite teve varias pessoas que escolheram aquele local para por fim a vida. Lembro-me de uma jovem moça vestida de branco. Muito bonita estendida no asfalto. Não a vi se atirando, mas havia acontecido cinco minutos antes segundo testemunhas. Nesse dia me lembro que ia correr um índio descalço. Era a grande expectativa da corrida, já que o favorito, um estrangeiro, já tinha ganhado umas quatro vezes, seu nome Gastão Roelandes (devo ter escrito errado o nome). Era muito cedo por acaso encontrei a Mônica uma jovem prostituta que tinha ficado minha amiga e transava comigo de graça. Olha, valia a pena pagar, se fosse o caso. Fomos para o hotel Rialto, na Rua da Consolação. Um hotel de curta permanência que não dava problemas, devido um delegado levar suas amantes. Batemos umas figurinhas, descascamos umas abobrinhas e às 23 horas fomos ate o viaduto do chá para ver se tinha novidade, mas aquele dia ninguém se atreveu se jogar. Tinha muita gente olhando para cima, fotógrafos do Diário da Noite e do jornal a Hora, o jornal sangrento da época, substituído mais tarde por Notícias Populares. Como a calmaria era geral no vale do povo, fomos até o cruzamento do avenida Ipiranga com a São João. Mônica subiu no vitrô do Citi Bank meteu suas cochas no meu ombro e ficou bem no alto para ver melhor a corrida. Acho que foi o pagamento de momentos antes. E a festa da São Silvestre estava ótima, nem senti o peso da Mônica. Na verdade ela era magrinha e se apoiava nos ferros do vitrô o que facilitou para meu ombro. Quando os atletas vinham passando por lá já perto da Avenida Casper Líbero, um alemão que vinha liderando a corrida pisou em falso no trilho do bonde e torceu o pé. Ai veio um Árabe, Abebe Bikilla, se não me engano, passou lotado pelo alemão, e foi embora. O índio, bastante aplaudido, passou poucos minutos depois até que ele não estava mal na corrida. Não me lembro a sua colocação.
Dali fomos a Kibelândia comer kibe e esfiha, para comemorar o que aquele esguio árabe tinha feito na corrida. Mônica ficou no centro, ia beliscar uma grana para o dia seguinte. E eu fui ao Anhangabaú pegar o ônibus 152 Vila Olímpia. Caso perdesse aquele, pegaria somente o navio negreiro (veiculo que recolhia motorista e cobradores da CMTC) às 2,30 de lá matina. Quando eu estava chegando em frente a cine Don Pedro II onde ficava o ponto inicial do Vila, encontro a Sônia. Uma morena linda que era amiga de uma namorada minha. Tinha desmanchado o noivado um mês antes. No dia 1 de Janeiro de 1965, começou o namoro com ela. Quando chegou dezembro daquele ano, o namoro acabou. Comecei o grande ano da jovem guarda (1966) livre. VIVA A LIBERDADE!