O alvo da pomba dos Correios…

Os tempos eram difíceis. Estava desempregado à procura de emprego. Não recordo o plano econômico que afetava a crise. Quem mandava a chuva. O homem de bigode, o pai da filha, ou o poliglota (duela a quien duela), aquele de saco roxo…

Ocupei a mão com envelopes de currículos e segui rumo a Praça do Correio no centro da cidade…

Vesti meu melhor terno, azul claro, de listas e camisa social combinando com gravata azul-marinho. Necessitava sair com a melhor auto-estima. Fui de ônibus para economizar.

Entraria pela Avenida São João, parei rapidamente em banca de jornal pra ler as manchetes e me dirigi à porta lateral dos Correios. Senti um barulho forte nos ouvidos. Parei! Fixei os pés nos degraus e senti uma enorme cagada de pomba havia caído na minha orelha direita. Limpei rapidamente com o lenço e entrei para colocar os currículos nas caixas do correio. Pensei: – Como esse pequeno fiofó, nesta vasta área descoberta, vem acertar justo minha orelha? Estou mesmo com urucubaca, "cagado de arara", ou melhor, de pomba.

Tomei o ônibus de retorno à residência. Retornei pensativo, cuidando de recordar refrões de auto-ajuda. Necessitava melhorar a confiança em meus atos. Não conseguia. Dois ou três passageiros sentaram ao meu lado, no banco vazio, e não consegui falar de minhas angustias. Levantavam e trocavam de banco. Senti-me um caipora, ávido por chegar em casa e narrar o ocorrido a esposa, ela era dada a benzeduras, talvez me curasse do olho gordo ou afastasse de mim esses pequenos orifícios, deixasse que eu não fosse alvo de nada…

Antes fui ao banheiro olhar-me no espelho. Quando surpreso vejo que ainda havia um bom pedaço de fezes de pombo na minha orelha… O motivo da fuga dos passageiros ao meu lado.

Não havia nada espiritual… Era tudo matéria… fecal!

e-mail do mail: [email protected]