O alfaiate da Vila das Mercês

A possibilidade de eu conhecê-lo era mínima. De tornar-me seu cliente então, era quase nenhuma. Ele morava na Vila das Mercês, na Zona Sul, e eu morava na Parada Inglesa, Zona Norte. Acontece que, em outros tempos, o Seu Geraldo (era este o nome dele) tinha sido muito amigo do seu Arnaldo, que agora morava na Parada Inglesa, perto da minha casa.<br><br>Seu Arnaldo era pai da Conceição, minha amiga, e compadre do seu Geraldo. Um belo dia foi visitá-lo e eu fui junto, dirigindo o carro, pois seu Arnaldo estava com o braço engessado e foi assim que eu o conheci. O senhor Geraldo tinha uma alfaiataria na Avenida Nossa Senhora das Mercês, próxima a casa dele (na Rua Batuíra) e era casado com a senhora Julieta.<br><br>Ele, o senhor Geraldo, foi uma das pessoas mais doces que conheci na vida. Pessoa calma, de fala mansa, languido, ouvia mais que falava. Parecia um lago sereno, transmitia paz. Em contra partida, a senhora Julieta era completamente diferente. Espevitada, mulher de riso farto, de gestos largos, falava alto. Sempre pronta a ajudar e a participar, era um vulcão em ebulição. Transmitia a vontade de viver. Mas ainda assim eles se completavam. Eram a mão e a luva. Tinham um monte de filhos, lembro-me do nome de alguns: Gaudêncio, Geraldo, Neuza, Edna, Regina e Julietinha, por quem tive um avassaladora, alucinada e meteórica paixão. Destas que como vem vão e só ficou marcada por não ter sido correspondida.<br><br>No lar deles havia uma alegria e uma harmonia que nunca tinha visto em lar nenhum, nem no meu (infelizmente). E para poder participar um pouco desta harmonia tornei-me cliente dele. Entre 1969 a 1973, quando cai na clandestinidade foi ele quem fez minhas calças boca de sino e meus paletós acinturados e de corte reto. Claro que na Parada Inglesa havia bons alfaiates, mas a preferência pelo seu Geraldo era só uma desculpa para ir lá e como ele sabia que eu vinha de longe, toda vez me convidava para tomar um cafezinho na casa dele e ficávamos papeando por horas.<br><br>Não sei o que aconteceu com eles, gostaria de saber. Provavelmente não estão mais entre nós. Mas para mim são eternos, porque todos que me tocaram permanecem comigo pra sempre, enquanto eu existir.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>