Todos os domingos, eu e meus pais tínhamos um programa certo.
Morávamos no Ipiranga, bem lá em cima, perto do Sacomã. E aos domingos, nós três saíamos pela manhã, tomávamos o bonde Fábrica n.º 20, atravessando o Ipiranga todo, o Cambuci, a Rua do Lavapés e Rua da Glória, chegando à Praça da Sé. Era então uma praça pequena, cinzenta, com a Catedral em construção, o belo prédio Santa Helena, o seu relógio central e o abrigo de bondes bem no meio.
Da Praça da Sé seguíamos para a Rua Direita, então uma rua de lojas boas e chiques. Chegávamos à Praça do Patriarca e nos encaminhávamos para o Viaduto do Chá. Para mim, menina, um lugar imenso, altíssimo, assustador. Na Rua Xavier de Toledo tomávamos o bonde, ou íamos a pé. Bonde podia ser o Vila Buarque, ou qualquer que subisse a Rua da Consolação. O bonde Vila Buarque passava na Rua Marques de Itu (ou Major Sertório?), rente à janela de um dos quartos que quase se debruçava na calçada. Fazia tremer tudo à sua passagem e uma vez descarrilou, invadindo o quarto de minha avó. Felizmente não estava ninguém dormindo.
Descíamos em frente à Igreja e descíamos a Rua Rego Freitas, indo até a casa de minha avó e tias, para comer a tradicional macarronada dos tios italianos, o frango assado ou com ervilhas, dos quais nunca me esqueci. Frango com ervilha é sinônimo da casa da avó e tias.
À tarde, muitas vezes eu, como a mais velha dos cinco primos, os levava ao Cine Odeon, na Rua da Consolação, um pouco abaixo da Igreja, na calçada oposta. Tinha duas salas: Vermelha e Azul, com filmes diferentes. Lembro-me de uma vez que tive que mudar de lugar com a tropa toda porque o menor fez xixi na cadeira e alagou o chão.
Eu e meus pais saíamos de lá à noite e a volta era um pouco diferente. Ao chegarmos a Praça do Patriarca, desviávamos da Rua Direita porque, nos domingos à noite, ela era dos pretos. Lotavam literalmente a rua. O preconceito era mútuo – nem os brancos queriam atravessar o mar negro, nem os pretos gostavam da intromissão dos brancos na "sua" rua. E desviávamos pela Rua São Bento e José Bonifácio, para chegar pela Rua Benjamim Constant ou Senador Feijó até a Praça da Sé e aos abrigos cinzentos e feios, onde faziam ponto os bondes. O Fábrica – 20 nos levava de novo para o Ipiranga, para o fim do domingo em família.
Nota: era década de 40, havia muito preconceito. Os negros não tinham ainda assumido o status que tem hoje, quando a cultura negra – mais precisamente afro-brasileira – já faz parte do nosso cotidiano.