Nomes curiosos em São Paulo

Tá com paciência prá ler essa? Então vai….

Voltando para São Paulo de uma viagem ao interior, de repente reparei no caminhão à minha frente na estrada. Não propriamente no caminhão, mas sim no nome da empresa gravado na caçamba do veículo: Transportadora Sopro Divino.
Fiquei imaginando como deveria ter surgido aquele nome. Talvez o dono fosse alguém muito religioso que já esteve ao pé da morte, ou melhor, com o pé na cova. Ou talvez tenham sido os filhos que sugeriram esse nome, aguardando a hora fatal, já de olho na polpuda herança patrimonial do fundador da empresa.
Isso me fez pensar o que leva as pessoas a escolher nomes, tanto de pessoas físicas como de pessoas jurídicas (como meu filho me perguntou outro dia se pessoa jurídica era o mesmo que advogado). Mas realmente é curioso como nos inspiramos para batizar filhos e empresas.
Coincidentemente, há pouco tempo li uma entrevista num jornal com um senhor chamado Comunista. Dizia ele na entrevista, que o nome havia sido inspiração de seu pai em homenagem a filosofia de Max. Falava também das situações pelas quais passou em função do nome. Não bastasse ele ter esse nome, ainda batizou os filhos, o primeiro de Jaurez (pronuncia-se Jorré), nome de um personagem de "Les Miserables" de Victor Hugo, o segundo de Chancy (nome tirado de outro livro) e o terceiro de Jorancy, mistura abrasileirada dos outros dois primeiros.
Lembrei então de que tive um vizinho evangélico, que, de tão religioso, batizou os seus filhos todos com nomes bíblicos. Pela ordem cronológica, Ezequiel, Ezequias, Raquel e Ananias. Daí fui lembrando de outros casos.
Deu em jornal de Goiânia, o nascimento de gêmeas no dia de finados, cujo pai batizou-as de Finaldina e Defuntina. Essa é de morrer!
Outro caso curioso de nomes exóticos e que também saiu em jornal é o do pai fanático por futebol que batizou os filhos com os nomes de Rivelino, Jair e Gérson. Isso porque só teve três filhos. Se tivesse mais, possivelmente Clodoaldo, Pelé e Tostão receberiam as merecidas homenagens também.
Mas pior ainda, foi o pai que quis homenagear os mesmos três jogadores batizando um único filho. Assim ficou Riveljairerson. Apesar de impronunciável, salve a seleção de 70, por unanimidade a melhor de todas.
Nas disputas pela preferência do nome paterno ou materno, conheci uma moça chamada Wangail, mescla de Wanderley com Abgail, seus pais. Assim, em casa ninguém brigou. Nesse mesmo critério, tem aquele popularizado pela nossa grande marron Alcione, mescla de Alcides com Ivone.
Tenho um amigo, cujos pais de nome Geraldo e Odete, batizaram a filha, irmã do meu amigo, de Geraldete. Esse meu amigo, inclusive, levando-se em conta o critério, iria se chamar Oderaldo, mas por bem registraram-no como Murilo para combinar com o nome do outro neto, Berilo (pedra semi-preciosa).
E os casos de dúvida de qual nome escolher? Entre Elsa e Elena, que tal Elselena. Ou entre Elisa e Ângela, que tal Elisângela.
Em matéria de criatividade, tem aquele deputado que se chama Onaireves. Tente ler de trás prá frente. Seria Severiano?
Dentro desse critério, tenho um amigo cuja tia chama-se Adnaloy (com y, por favor). Parece até nome de algum composto de liga leve. Mas não, é Yolanda ao contrário. E o quê me diz de Olegna? Parece nome de bailarina russa. Mas nada mais é que a brilhante inversão do nome Ângelo. Uma amiga, dona de um laboratório de análises clínicas disse-me ter recebido solicitação de exames de dois médicos: Dr. Aidan e Dr. Odracir, respectivamente Nádia e Ricardo
Falando em deputado, quantos políticos de nomes exóticos. Amazonino Mendes, só podia governar o Amazonas mesmo. Tem o Sigmaringa Seixas, digníssimo senador, que não é do Paraná. E o Sepúlveda a quem Pertence?.
Tem também os pais que homenageiam seus ídolos nacionais e internacionais. Na primeira categoria (nacionais) quantos filhos de nomes Robertos e Erasmos Carlos. Vanusa então, vixe! Na segunda categoria (internacionais), os Maicol são muitos, embora ultimamente em desuso, em função dos problemas de pedofilia. Desse nome já vi inclusive algumas variantes como Maikel e até Maicon, com as diferentes grafias, tanto com i como com y.
Se o assunto é artista internacional, a mesma amiga daquele laboratório atendeu a pacientes chamados Clark Gable dos Santos e Katelyn Soares (dá vontade de pedir autográfo).
Outro artista internacional, personagem de seriado, inspirou o nome Magaiver Silva. E tem até aquele corredor de Brasília, o Tom Mix da Costa. Outro dia vi um Ivan Dame Araujo (deve ser lutador de jiu jitsui).
Falando em esportes, o futebol é um campo profícuo dessas curiosidades. Lembra daquele sempre capitão da Lusa, o Oliúde (não esquecer de acentuar o u). Ou o artilheiro do Guarani, o Credence.
Mas se esses jogadores lhe são desconhecidos, você deve ao menos conhecer o mestre Didi (o Folha-seca), cujo nome era Deuscoredes Maximiano. No Palmeiras há uns quinze anos havia um goleiro de nome Fiordemundo Marolla, conhecido por esse sobrenome. Não são apelidos esportivos. São nomes mesmos, registrados em cartório.
Tem ainda os nomes decorrentes de anglicismos. Vi uma vez um tal de Valdisnei (qualquer semelhança com Walt Disney é mera coincidência). Esse poderia até se casar com a Madeinusa ou com a Letys Gou Pereira.
Outro dia em uma festa conheci um sujeito chamado Bacco (com dois cês, por favor) de Oliveira. De Oliveira? Devia ser de Videira, né não? Ironicamente só o vi beber refrigerante a festa toda. E nessa linha de deuses e personagens épicos, quantos Ben Hur por aí. Deparei até com um tal de Waterloo Napoleão de Souza.e um Genghis Khan Camargo.
Falando em Camargo, sabe o nome real do Zezé? Mirosmar, poético, apesar do erro de concordância nominal. Mas, não obstante a poesia do nome, melhor chamá-lo de Zezé de Camargo mesmo e ele que continue fazendo suas poesias musicais.
Em se tratando da classe artística, lembra-se do romance da Suzi Rego com o Paulo Cesar Grande. Pena que acabou só em namoro. Mas se tivessem tido algum filho ou filha, como ficaria o sobrenome?
Até aqui tratamos apenas dos nomes. Mas quantos pais de "brilhantes inspirações" aproveitaram a dobradinha nome-sobrenome para formular "criações geniais", que inclusive já fazem parte do anedotário. Ai vaí: Um Dois Três de Oliveira Quatro, Baião de Dois da Silva, Flávio Cavalcante Rei da Televisão Brasileira, Chevrolet da Silva Ford (deve ser mecânico), Rodometálico de Andrade, Oceano Atlãntico de Sá, Oceano Pacífico de Sá (seu irmão), Magnésia Bisurada do Patrocínio (pai publicitário), Magnúncio Torres, Nacional Futuro Provisório, Diva Gina dos Santos (essa é de doer!), Luz do Sol Clemente (divino!), Universo Cândido (singelo!), Pacífico Cordeiro (hum, sei não!), Koala Castro (que bonitinho!), Mijardina Pinto (tem que matar o pai). Bem, da família Pinto, nem vale a pena falar dos Décio, Armando, Inocêncio, Descêncio, Crescêncio etc.
Se no campo das pessoas físicas – que meu filho não me pergunte se pessoa física é um cientista – a coisa é abundante, no que diz respeito a pessoas jurídicas, São Paulo é pródiga em exemplos, com as mais diversas fontes inspiradoras.
Uma das fontes mais utilizadas, principalmente para o ramo alimentício (bares, restaurantes, padarias e similares), são os títulos e personagens de novelas. Na rua em que eu morava em Pinheiros, tem até hoje um bar chamado "Meu Rico Português", nome de antiga novela da Tupi, estrelada por Jonas Mello no início de carreira no papel do luso Manuel Maria.
Nessa categoria (alimentícia), é infindável o número de panificadoras "Minha Deusa". Acho que cada bairro tem pelo menos uma.. Fico imaginando a Vera Fischer embrulhando pãozinho quente no balcão e o Nuno Leal Maia fazendo troco no caixa. Acho que eu compraria uns 20 pães todo dia, lógico pela nossa eterna Miss Brasil, essa maravilhosa deusa.
Noutra ocasião vi uma lanchonete de nome "Saramandaia". Apesar de estar com fome, lembrei-me da Dona Redonda. Talvez o hambúrguer de lá tivesse muita gordura e como preservo meu colesterol bom (HDL, me disse a tal amiga do laboratório) procurei outro local para a refeição.
Ainda nessa mesma categoria, quantas panificadoras com nome de santa existem? Talvez se justifique o fato por esse ramo ter sido dominado pela grande e religiosa colônia portuguesa, que procurou referendar essa intensa devoção. Assim temos panificadoras N. Sra de Fátima, N. Sra da Conceição, Sta. Catarina etc. Um empresário mais criativo e igualmente religioso denominou seu estabelecimento de "Restaurante Santo Gostinho", ou seria Santo Agostinho.
Em outros segmentos comerciais, lembro que na Vila Maria há uma borracharia que se chama "Borracharia Carga Pesada". Já pensou no Antonio Fagundes trocando o pneu do carro do cliente com o auxílio do Stênio Garcia. Nenhuma mulher, nem mesmo as independentes convictas, iria querer estragar as unhas tentando tirar a roda.
Aliás, no ramo de auto-peças, penso que os títulos dos seriados são mais adequados. Tem um posto de gasolina no Tucuruví chamado "Auto-Posto Irmãos Coragem". To vendo o Claudio Marzo de frentista. Será que iria vender gasolina adulterada para a Janete Clair, a grande mestra das estórias de adultério nas novelas?
Passando pela Av. Pirajussara (canalização do córrego) vi outro posto que se chamava "Pantanal". Sábia escolha para um estabelecimento que no tempo das chuvas fica inundado. Seu dono até poderia lançar uma promoção: "Abasteça pelo menos 20 litros e ganhe uma lavagem do seu veículo com a Cristiane de Oliveira, de camiseta molhada".
Na sub-categoria seriados americanos (anos 60/70, meus amigos mais novos devem estar perdidos no espaço!), quantos auto-postos "Chaparral" e "Bonanza" existem por aí? A família McWright, de Bonanza, deve ter deixado a "Fazenda Ponderosa" no Arizona para administrar alguma distribuidora de combustíveis. Espero que pelo menos recolham o ICMS e mantenham o tiroteio de preços baixos com a concorrência..
Na Lapa, no início da comercialização dos aparelhos de telefonia móvel, havia uma loja cujo dono resolveu homenagear a si próprio e ao seu ator de novelas preferido, além de referendar o seu ramo de atividade. A loja chamava-se "Edson Celulares". Imagino que se ele atuasse no ramo de academias de natação e sua mulher se chamasse Claudia, possivelmente batizaria seu estabelecimento de "Claudia Raia 4".
Alguns outros nomes tornaram-se verdadeiros clássicos da literatura da Junta Comercial. Quem não se lembra de "O engenheiro que virou suco". Um nome bastante significativo em plena Av. Paulista, próximo ao prédio da Fiesp, casa dos maiores empregadores do país, ironicamente. Além de descrever com precisão a trajetória profissional de seu proprietário, esse nome denunciava a já existente crise no mercado de trabalho nos anos 70. Hoje, com o agravamento da crise de desemprego ele, o proprietário, deve até ter montado uma rede de franquias.
Alguns exemplos de estabelecimentos que levaram o nome de seus fundadores e se tornaram verdadeiras referências. Exemplo notório é aquela lojinha tipo brejó que começou em uma garagem. Era a loja DASLUcias. Preciso dizer no que se transformou?
E o Seo Girz, quem não comprou alguma geladeira ou televisor com ele? E ele nem pergunta – Quer pagar quanto? Não lembra? E se falarmos em "G. Aronson". Lembrou, né. Pena que com os solavancos do mercado, nas montanhas russas dos planos econômicos, o Seo Girz tenha penhorado o Aronson e permanecido só com o G. Não confundir com aquela rede de Sex-shop, "Ponto G" e nem com a "G Magazine".
Por outro lado, o patrício do Seo Girz continua forte e saudável como nunca. Também pudera com o nome que batizou seu comércio, homenageando nossos queridos migrantes daquele estado nordestino, terra de Gal, Gil e Caetano. Que tremenda sacada de marketing! Viva a Bahia!!!
Se esses exemplos são notórios, outros além de notórios são curiosíssimos. Que dizer de "Casa dos Machos". Quanto preconceito, não? Uma loja de ferragens tradicional da Florêncio de Abreu com um nome desses?
Isso mais lembra uma pet-shop chauvinista, clube do Bolinha de cães e gatos, onde cachorras (carioquês) e gatinhas são proibidas. Quando criança me divertia (falta de ter o que fazer) ligando prá lá só prá ouvir a telefonista atender e falar o nome da loja: Casa dos Machos, pois não!?! Como podia ter uma telefonista mulher?
Falando em bichos, tem aquele restaurante do Arouche, "O Gato que Ri". Muito simpático esse nome. Logo na entrada do estabelecimento encontra-se a foto do bichano sorridente. Mas penso que esse nome seria mais adequado para uma clínica odontológica de felinos, especializada em implantes dentários.
No começo da São João tem uma loja de artigos de caça e pesca chamada "Ao Elefante Esportivo". Simpático nome. Seu dono poderia franquear o nome para outras atividades. Por exemplo: confecção masculina para homens gordos: "Ao Elefante Social" ou "Ao Eleganfante" (Elegante + Elefante).
Outro consagrado e secular estabelecimento comercial cujo nome enaltece outro personagem do reino animal é o "Ao Veado D'Ouro". Não é carro alegórico de parada gay, não. Quem já não comprou alguma fórmula manipulada lá? Até seu fundador virou nome de avenida: a Henrique Schaumann.
Bem, esses são alguns nomes que me lembro e que exemplificam a farta inspiração dos cidadãos desta urbe. Com certeza muitos outros existem na Grande São Paulo.
Se você lembrar de algum, ligue para o nosso 0300 (cada ligação apenas R$ 0,27 mais impostos) e concorra a um valioso brinde de um dos nossos patrocinadores: a "Casa das Calcinhas".

PS. Vai aqui um grande abraço ao meu amigo Marquinho e aos seus primos Hermosilo, Aristeneto, Aristocléia e Cleotária (conhecida como Cléo,ainda bem!), lá de Bambuí, MG e aos vendedores da Perfumes Oruam (Mauro, ao contrário) e da Ailiram de Marília, SP. Como vocês podem ver, não é só em São Paulo que existe gente criativa. Haja criatividade!!!!!!