Em 1957, eu um moleque paulistano de dez anos, não lembro exatamente quando eles apareceram – nem mesmo em que rua os vi pela primeira vez. Embora, é claro, eu até me recordo de fatos paulistanos de antes daquela época. Enfim, caprichos da memória.<br><br>Fartamente, a gente acha na internet – nacional e de fora. É que entre 1957 e 1958 cerca de 75 daqueles elétricos vieram cá para São Paulo – "sold to Sao Paulo", consta que o município adquiriu para a CMTC – o Prefeito Adhemar de Barros. Veículos fabricados entre 1946 e 1948 – dois modelos iguaiszinhos que só se diferiam pelos parabrisas. Levavam 44 passageiros. E que surgiram nas ruas paulistanas como "novos", ainda em bom estado, apesar de terem dez anos de uso. Eram robustos, confortáveis e americanos, da Filadélfia.<br><br>Em uma revistinha "O Coletivo", dos empregados da CMTC, exemplar de 1957, uma foto mostra alguns daqueles trólebus alinhados no convés do navio, prestes a desembarcarem no cais de Santos. No vermelhão da CMTC com o logotipo inconfundível. Para subir a serra de trem, com certeza.<br><br>Aqueles "novos" trólebus – que, talvez, eu vi na Rua Maria Paula então de duas mãos – de quando o tráfego (controlado por guarda-civil, ainda não tinha nascido a CET) ainda era de mão dupla entre João Mendes e República, não? Tempo em que todos os ônibus da CMTC – novos "novos" e "recuperados" (reformados, na Santa Rita e na Araguaia) todos traziam a inscrição em preto e branco, de letras maiúsculas, acima das janelas: “MAIS TRANSPORTES, MELHORES TRANSPORTES”. Os bondes? Creio que não, que eu me lembre.<br><br>Trólebus aqueles – disso lembro bem – que traziam duas plaquetinhas circulares: uma sob o farol, acho que do lado direito, e outra dentro do carro, em cima do posto do motorista. Era o nome do fabricante, americano. Tradicional nos EUA – mostram-nos revistas -, as cidades muito os utilizaram, até antes da Segunda Guerra.<br><br>Como era comum na CMTC, principalmente com os ônibus importados – embora moleque, eu percebia – os ônibus acabavam sendo descaracterizados do que eram originalmente: mudavam-se, com o tempo, as portas, as lanternas de "navegação", os faróis, etc. Até as luzinhas de freio – o STOP de origem. Tais trólebus "novos", com o decorrer do tempo, passaram por isso. Pois até lhes modificaram os para-choques.<br><br>Pois lá pelos anos 70 ou 80, alguma mente brilhante -"técnico" ou engenheiro – resolveu "modernizar" a consagrada cara dos trólebus. E então alteraram a frente e a traseira em total desacordo com a simetria do desenho original, de fábrica. Para mim, de bonito o trólebus se tornou horroroso. Só não lhes alteraram a robustez, de tão bons que eram. Era a "criatividade" de quem não tinha o que fazer, de inteligente.<br><br>Rodaram por uns 30 anos, com certeza. Jornais dos anos 80 ou 90, não lembro bem, diziam que aqueles trólebus da CMTC eram os mais antigos a rodar no Mundo. Um deles – quase que todo original – descansa, orgulhoso, no Museu da CMTC. E um segundo, em ocasiões especiais, desfila pelas ruas paulistanas. Serve para matar a saudade dos tempos em que aqueles ônibus ostentavam no letreiro "Santa Margarida Maria", "Santa Teresinha" ou "Sílvio Romero". Ou de quando subiam e desciam a Augusta – claro, não a 120 quilômetros por hora…<br><br>Foram os últimos ônibus importados da CMTC. Depois de 1958, todos os trólebus seriam nacionais. Quanto à plaquetinha? Lembro bem, sem dúvida. Um círculo assim. No semicírculo superior, vermelho, uma sigla prateada: ACF (por curiosidade, American Car Foundry); no de baixo, prateado, em vermelho, um nome: Brill. Tradicional fabricante (também de trólebus) da Filadélfia, vi em algumas publicações. Pois aqueles belos trólebus ACF-Brill, da CMTC, vieram da "Denver Tramway Corporation". Lá do Colorado – velho Oeste dos EUA. Quem sabe – por que não? – como ilustre passageiro Bat Masterson?<br><br>Fim de conversa. Como diriam na internet os aficionados por trólebus. Aqueles "Brill", modelo TC 44 (trolley coach 44 seats, acho que é isso), eram dos trólebus de "primeira geração" -em termos de anatomia eletromecânica. Hoje, segundo os aficionados em trólebus, estamos na terceira ou quarta geração. Quem sabe, sabe.<br><br>É claro que eu – nostálgico dos belos ônibus paulistanos dos anos 40, 50 e 60 – eu aceito a evolução, o progresso. Menos a feiúra. Os trólebus "de primeira geração" (que seja assim) eram muito mais bonitos. Mais bem feitinhos. Caprichados. Tinham frisos e adornos que sumiram. Os velhos ACF-Brill, os paulistanos do velho Oeste e da Filadélfia, marcaram época de tanto que nos transportaram. Confortável e com segurança. Nas ruas, rodaram com imponência. Eram o próprio John Wayne – xerifão, a plaquetinha circular no lugar da estrela, no peito. Diretamente do Colorado… "No velho Oeste, ele rodou…".<br><br><br>E-mail: [email protected]