2008 – Pensativo, saí da Casa das Rosas, na Avenida Paulista, onde assisti ao lançamento do curta metragem “Desatino”, do diretor Dimas de Oliveira. Na tela vi o assassinato, seguido de suicídio de duas personalidades da cidade de São Paulo dos anos 20. Um filme seco, ácido, como às vezes a vida é…<br><br>Mas nem por isso deixou de ser brilhante nas imagens, na poesia e na narrativa das últimas horas de vida dos amantes e na sequência dos fatos após a morte dos dois. Não havia trilha sonora, a música era incidental, provocadora. Ora suavizava, ora adensava as cenas. Ali, na tela, eu vi o desenrolar de uma tragédia que causou comoção e incomodou muito a elite paulistana: um dos Toledo Piza mata a “mundana” e dá fim à própria vida! Um dos Toledo Piza, um membro de uma família tradicional e antiga, que remonta aos tempos da Vila de São Paulo. Dimas de Oliveira me havia dado o cenário, corpo e voz aos personagens de uma tragédia que eu conhecia desde a infância, através da tradição oral…<br><br>Nos anos 20, esta tragédia urbana repercutiu tanto que ultrapassou os limites da cidade e disseminou-se pelo interior. Tornou-se o assunto mais comentado à meia voz pelos "coronéis", nas sedes das fazendas, (muitos com "culpa no cartório") e pelos colonos em meio aos cafezais… Chegou até a Fazenda São Martinho, na região cafeeira de Ribeirão Preto, onde moravam os meus avós.<br><br>Repercutiu não pelo Doutor Moacyr, de quem todos lamentavam a trágica morte. Mas sim, pela dama em questão – a Nenê Romano que, há alguns anos fora vítima da vingança de Íria Junqueira – a poderosa rainha do café, o "coronel de saias" – e de sua filha, da cidade de Cravinhos… Recostado no banco do ônibus, olhos fechados, pensava em Nenê Romano e no fascínio quase obsessivo que ela exercia sobre mim. Tanto fascínio que, além da sua conhecida história oral, fui paulatinamente atrás dos fatos. Os documentos eram parcos (Dimas os resgatou após uma cansativa busca), restaram-me apenas os jornais da época…<br><br>Quem era Nenê Romano? Era Romilda Machiaverni (1897-1923), vinda da Itália, aos dois anos de idade, para o Brasil. No Brás viveu a vida difícil dos imigrantes e, aos dezessete anos de idade foi trabalhar como camareira no conceituado Hotel Bella Vista, na Rua da Boa Vista. Quanto ao seu físico e plástica há um termo italiano que a define muito bem: "Bella da venere". Termo difícil de traduzir corretamente. "Venere" vem de Vênus, mas na frase significa venéreo (genital, sexual). Seria, mais ou menos, "Linda para se amar sexualmente, sempre e sempre, com a intensidade do amor e com a alma".<br><br>Do Hotel Bella Vista para o mundo foi um passo. Romilda cortejada pelos ricaços e "coronéis" que se hospedavam no hotel. Acabou cedendo e tornou-se "teúda e manteúda" desses "cavalheiros" que sempre a requisitavam e que pagavam caro por isso, com presentes caros os seus favores. <br><br>Lá pelo ano de 1915, não mais camareira, deixou o Hotel e foi morar sozinha em uma casa da Rua Bento Freitas. Uma casa onde recebia com mais privacidade e intimidade os seus "benfeitores". De repente toda cidade de São Paulo passou a conhecer a Nenê Romano e sua rápida ascensão como a grande cortesã da cidade. Romilda não existia mais. E Nenê vivia à larga, gastando fortunas em roupas e jóias. Não podia ser diferente. Era sempre requisitada pelos amantes, como acompanhante nas festas sociais e públicas. Era comum vê-la nos eventos do Trianon, nas temporadas líricas, no Theatro Municipal e em muitos clubes sociais.<br><br>A arraia miúda a odiava e invejava. Nos cortiços mães de família a desprezavam; as operárias, as moçoilas casadoiras comentavam às escondidas sobre sortilégios e feitiços que a “messalina”, a “Circe” fazia para "segurar" os seus amantes… Nomeavam os "grandões", os da "burra do dinheiro" que elas acreditavam fossem amantes dela. <br><br>As mulheres da elite desprezavam e abominavam Nenê. Sofriam caladas, pois qualquer ação ou atitude poderia fazer com que a meretriz, a desavergonhada, cheia de indignação, viesse a "lavar a roupa suja" em público, acabando por revelar os pecadilhos dos filhos, dos pais, dos maridos dessa mesma elite.<br><br>Melhor calar-se, odiar em silêncio… E Nenê Romano seguia a sua vida. Do leito para a passarela do "Grand Monde". Desfilava seu corpo, sua beleza e seu luxo. Os jornais falavam dela, insinuavam coisas… Veio à baila o nome de certo deputado, tido como seu amante… Deu falatório, deu briga e pedido de retratação. O povo comentava descaradamente que Washington Luiz – o Presidente do Estado, de grande fama como mulherengo, era frequentador assíduo do leito da mundana.<br><br>Verdades, mentiras e fantasias sobre Nenê Romano. A única certeza sobre ela é que muitos a amavam e muitos a odiavam, outros a odiavam às raias do absurdo… <br><br>Certa noite, em 1916, de volta à sua casa, Nenê foi atacada. Dois homens a seguraram enquanto que um terceiro tentou dar-lhe uma navalhada na face. Navalhada que lhe acertou o pescoço. Acudida a tempo, presos os agressores, soube-se o real motivo da agressão: Maria Eugênia, filha de Iria Junqueira – a Rainha do Café, apaixonada por um amante de Nenê Romano, soube que o rapaz acintosamente beijara-lhe a mão, na frente de todos, em plena Avenida Paulista. Cheia de ódio e desejo de vingança, mandou vir da fazenda três jagunços para que eles desfigurassem a prostituta.<br><br>Nenê recuperou-se e mudou-se para a Rua dos Timbíras, número18. Mais calma e instalada na sua nova casa ela procurou o advogado Moacyr de Toledo Piza (1891-1923) para representá-la em um processo indenizatório movido contra Maria Eugênia. Começou o caminho do fim. Maus fados estavam presentes naquele encontro.<br><br>Doutor Moacyr apaixonou-se perdidamente por Nenê. Logo sairia do seu escritório, direto para a cama dela. A princípio contentara-se em ser mais um dos amantes, mas, aos poucos foi se tornando possessivo, obcecado, violento, exigindo exclusividade.<br><br>Pouco mais de dois anos de relacionamento a vida de Nenê transformara-se em um inferno. Os "benfeitores" recusaram-se a "bancar" os seus gastos. Só a ajudariam se ela terminasse o relacionamento. Desesperada, quase falida, Nenê deu um basta e terminou a relação. Moacyr não aceitava o fim do caso. Insistiu, infernizou tanto a amante que esta proibiu a entrada dele em sua casa. Nunca mais o receberia na intimidade. Moacyr desesperado insistia, incomodava…<br><br>25 de outubro de 1923 – Romilda telefona para a “Garagem de Luxo”, na Rua Conselheiro Crispiniano, pedindo um carro. Às 21 horas o chofer Isautino Soares estaciona a porta de Nenê Romano. Ela o esperava na rua. Do nada apareceu o Doutor Moacyr alegando urgência em falar-lhe. Entraram no carro e o Moacyr pediu ao chofer que "tocasse" para a Avenida Angélica. No trajeto Moacyr discutiu acaloradamente com Nenê Romano. Na altura da Rua Sergipe, Isautino ouviu disparos e o grito de Nenê:<br>- "Ai, Moacyr! Por quê?"<br><br>O chofer parou bruscamente o veículo e olhou para o banco traseiro, a tempo de ver o Doutor Moacyr Piza disparar contra o próprio peito. Desesperado, Isautino fez o retorno e a toda velocidade dirigiu-se para a cidade, rumo à Polícia Central, no Largo do Palácio (Pátio do Colégio). Romilda Machiaverni chegara morta e, ali, na lateral da Polícia central, Moacyr de Toledo Piza dera seu último suspiro.<br><br>E os jornais não fizeram tanto escândalo, ao contrário. Relataram o "Um drama de sangue" e lamentaram o "inditoso moço" que perdera a vida na tragédia… Sobre "o moço", em breve biografia – Advogado, escritor, poeta, jornalista – ressaltaram todas as suas qualidades… À Romilda deram-lhe um arremedo biográfico e apontaram-lhe todos os defeitos… E a culpa pelo seu próprio fim, pela vida que levava. Ao criminoso, os louros. À vítima, a indiferença, o ostracismo.<br><br>À Romilda coube um cantinho, no Cemitério do Araçá, longe do interesse e da curiosidade de todos. Ao Moacyr, um túmulo no Cemitério da Consolação. Túmulo ornado com a magnífica obra de Francisco Leopoldo e Silva – A Interrogação. Um túmulo estranho, a unir e separar os amantes. Um túmulo cuja escultura parece perguntar: "Porque, Moacyr"? Uma sepultura que, sempre visitada por causa da obra do Leopoldo, conta a história, eterniza para sempre a tragédia dos amantes e a memória de Nenê Romano.<br><br>2011 – E cá estou eu 88 anos depois a lembrar do pobre Moacyr Piza e do seu desatinado amor. E a lembrar de Romilda – a Nenê Romano – que viveu a sua vida como tinha que ser vivida. Afinal ela era "bella da venere!" Que outra vida ela poderia ter vivido?<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>