Ao tomar conhecimento dos relatos, "o ônibus negreiro" da Guarapiranga, do colega Carlos Fatorelli, novas lembranças acabaram se soltando de dentro da minha caixa de pandora. Foi muito interessante sua história.<br><br>Minha família, nada tinha de cigana, mas, periodicamente, estavam de mudança de uma região para outra ou de um bairro para outro. <br><br>Aos 22 anos estava, dessa vez, morando próximo ao Largo de Socorro, no início da Av. Guarapiranga. Mas, trabalhava no centro da cidade, na Rua 24 de maio. Acordava bem cedo na tentativa de pegar vazio o ônibus da Viação Bola Branca ou Jurema para ir sentado até o centro e aproveitar para dar uns bons cochilos. Saía de casa às 6h, pois entrava no banco às 8h. Eram 40 minutos diários até o centro. O trajeto do ônibus seguia em direção ao Largo Treze, continuando pela Av. Adolfo Pinheiro e atravessava de cabo a rabo a Av. Santo Amaro parando de ponto em ponto para recolher pessoas. Depois, seguia para a Nove de Julho percorrendo toda a sua extensão para, no final, descarregar o povão na Praça das Bandeiras. No banco o expediente ia até as 17h.<br><br>Para aliviar a tensão no trabalho, a diversão na hora do almoço era ficar na porta da "Galeria do Rock" apreciando o movimento e com os bolsos cheios de elásticos para atirar na poupança de cada popozuda que passava. Quase todo dia tinha encrenca…<br><br>Ao final do expediente, nos reuníamos para uma ou duas cervejas no sujinho da galeria que fazia ligação com a Rua Barão de Itapetininga. Logo depois, seguia à pé para o “Cursinho Med”, na Rua Augusta. <br><br>Minha última aula acabava às 23h30. Saia correndo para pegar o "negreiro", que passava na Av. Nove de Julho. A última viatura da "Bola Branca" saía às 23h45 da Praça das Bandeiras. E o derradeiro, "Jardim Ângela" da Viação Jurema, saía às 0h. Perder um dos dois era certeza de dormir na rua. <br><br>No cursinho, acabei fazendo parte de uma turma que curtia música no “Crazy Cat”, onde fiz algumas amizades, entre elas a Imma, com quem namorei e acabei casando dois anos depois.<br><br>Depois que comecei a namorar essa menina, que na época tinha 16 anos, tinha a responsabilidade de levá-la para sua casa depois das aulas. Ela morava na Rua Souza Nazareth, travessa da 25 de março. Para acertar os horários saíamos uma aula antes do final. Deixando-a em casa, saía correndo em direção a Praça das Bandeiras, esperançoso de pegar o "negreiro" da Viação Jurema-Via Jardim Ângela.<br><br>O stress de levantar cedo, trabalhar o dia todo, fazer cursinho, voltar para casa no último ônibus, acabava nos derrubando tanto no trabalho quanto na escola. E, somando tudo isso, atrapalhava na volta para casa. Desde que iniciamos o namoro, logo na primeira semana, acabei passando duas vezes do meu ponto, no início da Av. Guarapiranga. <br><br>Logo que entrava no veículo já buscava um assento para me ajeitar de modo a encostar os joelhos nas costas do banco da frente, assim, me ajeitando para um longo cochilo.<br><br>Na semana seguinte, novamente passei duas vezes o ponto. Na época, não havia acostamento e muito menos calçadas. Era entrar no ônibus, sentar e já começava o cochilo. Depois de algum tempo, desenvolvi a agilidade comum nos trabalhadores "dormir em pé" nas conduções, quando estava apertado. Tudo corria bem se não houvesse brecadas bruscas.<br><br>O tempo foi passando e os cochilos foram aumentando. Certa noite, na volta para casa, capotei de tal forma que só acordei ao chegar à garagem da Viação Jurema, quando fui avisado pelo cobrador de que era fim da linha. Nossa! Era quase uma hora da manhã e eu estava na garagem, dez pontos depois da minha casa… Cansado e sonolento, fui para a rua à espera de possível condução. Fiquei no ponto por 15 minutos, mas caí na real que ali não era seguro e nem tinha futuro, pois os carros das empresas se recolhiam às 0h.<br><br>Eram quase dez quarteirões da garagem até a minha casa. Com sono e cansado me enchi de coragem e me pus em marcha. Postes com luzes eram bem espaçados e tudo ficava muito escuro. Fui caminhando às vezes rápido, outras vezes lento depois de levar quatro tombos pelos buracos que ia encontrando. Durante todo o trajeto percebi que apenas um carro havia passado.<br><br>Bufando e xingando, depois de quase uma hora e meia, cheguei em casa. Cai morto na cama. No dia seguinte, tentei ser mais esperto e pedi ao cobrador para me dar um toque ao chegar ao Largo do Socorro. Deu certo.<br><br>Na semana seguinte, notei um cobrador diferente, tentei fazer amizade com ele, mas o cara também estava com sono e seguia dando os seus cochilos.<br><br>Acabei dormindo e acordei novamente na garagem. Como já tinha experiência me coloquei em marcha e fiquei mais atento aos buracos. Mesmo assim cheguei morto de cansaço. Essa aventura estava prejudicando meu trabalho e os estudos também. Mas, o namoro ia muito bem obrigado. De vez em quando ainda perdia dois pontos por causa dos cochilos…<br><br>Novamente, dormi além da conta e acordei na garagem. Ficava bravo, pois já sabia o que me esperava. Aquilo tudo estava me deixando cada vez mais louco. Nada de ônibus, nada de carros… De repente, ao longe, vejo um táxi com o luminoso aceso. Fiz sinal, mas o cara não fez menção de brecar. Pouco tempo depois, vejo um carro voltando, era o táxi que passava de volta. De novo o táxi passa por mim, fiz sinal novamente e ele parou 20 metros adiante. Ele devia estar me estudando, pensei. Com receio, fui chegando de mansinho quando, de repente, a porta se abre e escuto uma voz: “O que você esta fazendo aqui Luigy?” Tomei um susto diante do inusitado.<br><br>Meu pai tinha um Auto Elétrico e uma oficina mecânica no Largo do Socorro, onde trabalhei por algum tempo em minha juventude. <br><br>Chicão era o nome do taxista amigo, que me deixou na porta de casa de carona. Mesmo depois de minha explicação do acontecido, ele me deu bronca por estar vagando por ali naquele horário. Alertou-me de que, ali, a barra era pesada na madrugada e que deveria tomar cuidado ou arrumar outra estratégia.<br><br>Depois de muito pensar, acabei arrumando uma nova solução: nos dias em que estivesse muito cansado e nos finais de semana poderia ficar e dormir na casa da namorada com o consentimento de minha querida sogra. Depois desse arranjo, o incidente nunca mais aconteceu.<br><br><br>E-mail: [email protected]