"Necessária agilidade…"

Em março de 1955, eu era um moleque paulistano de sete anos. Que se encantava de ir com o pai – passeio de pobre – vez por outra (em um domingo de manhã, em um feriado), passear no Centro. "Admirar" a cidade. Notadamente o Anhangabaú e redondezas. Íamos preferencialmente de bonde, pois era menos caro que de ônibus: meus contemporâneos hão de lembrar.

Galeria Prestes Maia: um dos logradouros "visitados". Monumental ligação do desnível entre a Praça do Patriarca e o Vale. Bem entendido: exclusividade de pedestres, não? Certamente, lá, uma das primeiras escadas-rolantes do Brasil. Pioneirismo de paulista… Naquela época, um lugar exemplar.

"Diário Popular", 1º/3/1955. Era uma terça-feira. Primeira página: "Entregue ao público parte da escada-rolante (mostrava a foto); em cerimônia a realizar-se hoje, às 15 horas, será entregue ao público o primeiro lance da escada-rolante da Galeria Prestes Maia; melhoramento esse que virá beneficiar os paulistanos que diariamente, do Anhangabaú, se dirigem para a Praça do Patriarca".

Porém, eu não me lembro dessa cerimônia. Mas me lembro bem da satisfação, que me causava um simples passeiozinho na Galeria. Simplesmente, subir e descer pelas escadas-rolantes, um "ir-e-vir" mais confortável para os pés paulistanos… Galeria Prestes Maia, um marco da engenharia e da arquitetura da Paulicéia.

Pois muitos também se recordam. Durante muitos anos, escadas-rolantes e elevadores traziam, de imediato, à mente, um nome tradicionalíssimo da indústria paulista: "Atlas"! Atlas era sinônimo daqueles equipamentos. Sem dúvida.

Equipamentos esses que nasciam lá no Cambuci, nas grandes instalações fabris da Rua Alexandre Levi. Nome que depois, em 1958, viria também a ser associado aos primeiros trólebus nacionais: Villares! Há alguns anos, no Centro, tive oportunidade de entrar em um prédio que ainda mantinha – impecáveis condições de funcionamento – belíssimo e antiquíssimo elevador Atlas. Que não só bravamente vinha resistindo ao tempo como também já contemplando gerações de ascensoristas…

Mas como nem mesmo o progresso é imune de incidentes, logo no dia 16 daquele março de 1955, a serpente metálica engasga. Empaca!

A edição de 16 de março de 1955 daquele histórico jornal paulistano, o de título em letras góticas, esclarece à página três: "Paralisada parte da escada-rolante; a sola do sapato de um pedestre determinou o desarranjo. Ontem à tarde, quando mais intenso era o movimento pela escada-rolante – instalada na Galeria Prestes Maia – um dos pedestres, que por ela subiam, não teve a necessária agilidade para dela sair e, assim, a sola de seu sapato – que estava despregada – entrou sob as engrenagens do mecanismo (…)". Incrível!

Então, toda a agitação febril dos paulistanos, aquela correria desenfreada da cidade, que "não podia parar", estancou! Diante de uma simples sola de sapato… Mas que "desventurado" pé teria maculado o orgulhoso deslizar da recém-inaugurada? O esquerdo? O direito? Não consta do texto… Algum "pé-de-chumbo"? Ou teria sido "sabotagem"? De algum paulistano, avesso ao progresso? Ou fã incondicional das escadas tradicionais, de pedra, "estáticas"? Faltou que investigassem…

Escadas-rolantes de hoje. Como facilmente constatamos, proliferam. Ainda bem! Nos shoppings, nas estações do metrô, nos aeroportos… Para melhor exercermos não só o sagrado direito de “ir-e-vir” como também o de “subir-e-descer”. Precavidas, porém, de solas de sapato!

É nisso que deu fuçar um jornal de março de 1955: incomodar o passado, devidamente arquivado. Resultou em "descobrir" um acontecimento, à época, inusitado. Que acabou me torturando a curiosidade: teria sido mesmo "sabotagem"? Mas claro que não! Apenas seja entendido que "necessária agilidade", daquele pé precipitado, nada mais terá sido que mero azar!

Afinal, que paulistano haveria de querer deter sua própria agitação? Muito menos obscurecer o brilho daquela pioneira escada-rolante, igualmente paulistana… Justo São Paulo, que não podia parar!

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