Natal um pouco triste

Nascido na Freguesia do Ó, em um berço pobre, os Natais de minha infância e adolescência não foram fartos e tão festivos. Lembro-me dos meus Natais a partir dos meus cinco anos em diante…

Minha mãe ficou viúva, e como não recebia nenhuma aposentadoria de meu falecido pai, passou a trabalhar muito para dar de comer para mim e minhas duas irmãs, um pouco mais velhas do que eu. Era o ano de 1946.

De início recebíamos de ajuda uma cesta básica dos Vicentinos, liderados na época pelo Sr. João Abrão de saudosa memória, como também uma cesta básica fornecida pela LBA (Legião Brasileira de Assistência), que garantiam essa ajuda por três meses.

Nesse tempo, minha mãe conseguiu de uma firma na Lapa, a oportunidade de fazer um trabalho na própria casa, que consistia em fazer o acabamento de palhas de aço e que, depois de prontas, deveriam ser entregues na fabrica na Rua Coriolano, na Lapa. Eles pagavam perto de CR$0,20 pela grosa, que consistia em 24 palhas de aço.

Para se tirar perto de 30 cruzeiros por semana, tínhamos que montar no mínimo umas 6.000 palhinhas que, por não caber dentro do ônibus, dado o volume enorme dos três sacos, eram levados pela minha mãe e minhas irmãs da Freguesia do Ó até a Lapa, perto de cinco quilômetros, nas costas e a pé e, então, na volta, de ônibus, elas traziam o novo material para ser igualmente montado e depois entregues na semana seguinte.

Vivendo essa vida difícil numa época em que não havia bolsa família e ainda em clima de carestia de pós-guerra, presentes, enfeites e ceia de Natal eram coisas para classe média ou alta.

Eu, ainda criança, não enxergava essas diferenças e, como toda criança, no Natal queria que Papai Noel também passasse na minha casa. E como eram sofridos os Natais de minha infância… Parte dos meninos da minha vizinhança de classe média desfilando com seus presentes. E os meninos pobres como eu, de bronca com o Papai Noel que, para mim e muitos outros meninos do meu bairro, tava mais para o “Padrasto Noel” (com o devido respeito aos padrastos do meu Brasil).

Como todo menino da mesma idade, escrevia uma cartinha ao Papai Noel, colocava com um pouco de capim dentro do meu sapatinho já velhinho, furado e apertado, colocava ao lado da janela do meu quarto (que era também o quarto de minhas irmãs), pedindo um carrinho ou um revólver de brinquedo com cinturão e cartucheira. E no outro dia, eu, todo feliz, corria para pegar o sapatinho e encontrava escrito no verso do meu bilhete um recado desenhado pela minha irmã: “Como você não foi obediente para sua mãe e suas irmãs, esse ano você não vai ganhar o seu presente”.

Hoje tenho certeza que teria sido preferível um encontro com minha realidade. Uma cartinha escrita em nome de minha mãe dizendo: “Filho, somos muito pobres, mal temos para comer e viver, e como sou analfabeta, pedi para sua irmã mais velha escrever esse bilhete para dizer que não tenho dinheiro para te comprar presentes, mas garanto que meu amor você terá por toda vida, e fome você jamais passará enquanto eu viver. Assinado: sua mãe que muito te ama”.

Tenho absoluta certeza que qualquer criança pobre do mundo vai preferir essa cartinha com essa realidade à ilusão de um presente, seja ele qual for.

E esse foi o maior presente que minha mãe me deixou, jamais passei fome e jamais faltou amor em minha vida.

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