Natal do Papai Noel e do presépio

Noite clara e neve branca, gela o vento, norte em avalanche. Ao longe, a lua derrama uma luz clara sobre a superfície do mar de imensa escuma, onde o gelo duro, pontiagudo de agulha, rasga o tosco horizonte na perpétua aurora boreal; quando a neve amontoa por lá, tudo é estéril, cheio de brumas. E ele veio de longe, o bom Papai Noel, desde os últimos dias do outono polar; deixou para trás o pólo gelado, atravessou os mares e montanhas cobertas de neve eterna e, numa bela manhã de dezembro, ele entrou triunfante na grande cidade ainda dormente, sem tambores nem trombeta em silente silêncio.

Após ter caminhado tão rápido em seu trenó puxado por quatro formosas renas, o pequeno astrólogo da cidade, sob o chapéu pontudo, observava freneticamente o céu através dos grandes óculos redondos, acreditando que ele, o bom Papai Noel, ainda estivesse sobre os céus da Lapônia.

Enquanto isso, ele já sacudia, pelas alamedas e ruas da cidade, sobre as calçadas da loja dos brinquedos do Shopping Center, a barba branca, as roupas e os cabelos feitos de fios de seda brilhante aveludado; até parecia que nunca o senhor Papai Noel se havia anunciado tão cedo assim. Quem o visse com lã grisalha, que lhe dava um aspecto de um urso branco polar, chegando especialmente numa daquelas flutuantes montanhas de gelo que são as diligências do oceano gelado, que vinha montado no seu trenó vermelho de renas soberbas, sentiria arrepios e o bater constante dos dentes de frio; era somente a impressão do primeiro momento, pois as rosas que floresciam em suas faces, como reflexo de alguma longínqua aurora boreal, faziam pensar, não se sabe o porquê, na chama da lenha que queima lentamente no fogo da lareira, deixando um calor tropical como se bebêssemos numa grande xícara um delicioso chocolate.

Desde a véspera de São Nicolau, do Natal e das alvíssaras, os brinquedos povoam a mente de polichinelo das meninas cheias de bonecas e da caixa de soldadinhos de chumbo, até mesmo dos modernos cavalos mecânicos e outros estranhos mecanismos de graciosos movimentos.

Todos os anos observamo-lo reaparecer com seu casaco vermelho de gola alta e branca, cabelos e barba da cor da neve, nariz rosado pela brisa gelada do pólo, com altas botas negras, forradas, semelhante ao do Pequeno Polegar.

Ora, todos esses anos se acumularam sobre os ombros, sem modificá-lo e ele mantém a mesma postura, o mesmo rosto liso, luzidio, divinamente iluminado de alegria e de mansidão, como se ainda o sol, vindo do tempo das neves boreais, continuasse luzir sob sua pele corada. Suas espáduas são sempre firmes e retas, e as misérias e as distâncias dos caminhos percorridos nunca puderam dobrá-las; e fora assim, que nós, os adultos hoje, o conhecemos, quando criança, alegre, feliz com seu casaco de pastor, o gorro branco e vermelho e as botas negras e luzidias.

Assim como vós, nossos irmãos mais jovens, quando forem adultos também, tornarão a vê-lo desafiar a ação do tempo que a tudo devassa, porém, sua magnífica majestade jamais o modifica. Mal o bondoso velhinho se apresentou brilhante de geada e orvalho como se fosse um merengue na vitrine da loja dos brinquedos, todos os meninos e meninas que, após as aulas da escola, se detinham em algazarra diante da vitrine dos sonhos na exposição da loja do velho mercador do Shopping Center. Presos de imensa alegria, um após outro, foram colar os narizinhos vermelhos achatados, contra o vidro da vitrine.

Sem dúvida, a casinha das bonecas já fazia furor entre as meninas; o forte apache, os automóveis luzidios, provocavam nos meninos o grande desejo de posse. Mas, muito mais do que todos os brinquedos, contemplavam a grande barba branca e as roupas empoadas de neve de seu velho amigo e conhecido: o bom Papai Noel. O patriarca que, por sua vez, a julgar pelo ar de contentamento de suas faces sorridentes, parecia lisonjeado com tal solicitude.

É que o Papai Noel causava curiosidade encantada no reino da criançada; sucedia que, às vezes, os narizinhos colados nos vidros da vitrine se pareciam com balas de goma, e ele, o bom Papai Noel, faz nascer no coração e no pensamento das crianças uma avalanche de sonhos e ilusões, belos brinquedos caindo pelas chaminés das casas. Nos parapeitos das janelas, nos varais dos quintais os sapatos expostos, nos quartos de dormir havia uma felicidade estampada no rostinho de cada criança.

É semelhante a uma noite encantada, toda estrelada, com velas e enfeites de metal e de bolas coloridas, fitas multicores pendentes dos ramos da árvore de Natal, que faz chover, das mãos enluvadas do Papai Noel, mil surpresas.

Contudo, havia na vitrine da loja dos brinquedos, uma alegria diferente. Reinava um pequeno presépio que o mercador do Shopping Center havia colocado do lado mais visível da vitrine, um pouco mais à frente do Papai Noel. Havia ali expectativa e emoção de algum acontecimento próximo; os hóspedes do pequeno estábulo deviam ser testemunhas muito breves e não poderiam explicar de outra forma o ar de sobressalto das três vacas, do burrinho e das ovelhas, mais ocupados em estender os pescoços para pastar o molho de feno que lhes servia de alimento. E verdadeiramente todos se moviam sobre os cornos, os olhos espantados, dilatados para o ângulo obscuro da loja, e pareciam esperar a vinda de alguém muito especial. Todos aguardavam ansiosos pelo acontecimento.

Pouco depois, a estrela de ouro, como vinda do oriente, presa num galho de pinheiro do presépio por um fio de latão dourado, e se distinguia a primeira vista, embora brilhasse vivamente, dava a explicação do mistério. Sem dúvida, era aquela estrela que contemplavam com muita atenção as três vacas, o burrinho e as ovelhas; ela parecia tombar dentro do pequeno estábulo numa ternura e mansidão infindas. Essa eminência, talvez, nada dissesse por si mesma se não fosse a presença de três personagens suntuosamente vestidos e que, com os rostos voltados para a estrela, faziam esforços para se aproximar o mais rápido possível do estábulo; um deles, negro como um borrão de tinta, sobre o turbante amarelo que lhe cingia a fronte, trazia nas mãos um incensório de ouro cinzelado nas bordas de prata; a julgar pela cor da pele dos três, tinham vindo do fundo dos áridos desertos. Junto da manjedoura onde ficava o menino rosado, não se poderia imaginar um rosto mais suave e belo, os grandes olhos escuros, onde parecia refletir todas as estrelas de ouro, um amável sorriso que pairava em sua boca perfeita; seu nome: Maria.

Sem dúvida alguma, ao fazê-la tão bela, quisera o artista expressar toda ternura e a felicidade que, entre os brinquedos como entre os homens, se revestem sempre de cores brilhantes. Além disso, os três reis magos foram também, por sua parte, objetos de uma predileção toda especial do artista. Os três estavam ricamente vestidos, trazendo o ouro, o incenso e a mirra.

O bom Papai Noel continuava a sacudir seus flocos brancos, leves como penas. Havia entre os expectadores uma grande alegria, como só o conhecem os avós ao brincar com os netinhos. O bom Papai Noel se alegrava ainda mais ao dar aos mais pobres um pouco de alegria e poder realizar o sonho de cada criança de ter uma mesa farta nesta noite de Natal. Estavam celebrando o maior acontecimento do mundo, o nascimento daquele que veio a ser o rei do mundo: Jesus!

A vocês, amigos, familiares, responsáveis pelo site, colaboradores em geral, um feliz Natal a todos!

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