Namoro à antiga no Campo Belo

Será que alguém ainda se lembra dos namoros havidos nos anos 50 e 60? É claro que muitos irão dizer que sim. Aí eu volto a perguntar: em que dias da semana era permitido namorar? Talvez poucos irão responder. E isso porque os hábitos familiares mudaram muito nestes últimos 50 anos…

Naquela época, era muito comum que às terças e quintas-feiras, lá pelas 17h30, os banheiros dos escritórios se enchessem de cheiro de lavanda Atkinsons ou mesmo de Acqua Velva, pois, para a maioria dos rapazes, era "dia de namorar", já que só podíamos ir ver nossas garotas nesses dias durante a semana.

E, assim, encontrá-las para um simples passeio pela Vieira de Moraes, ou ainda para um choppinho com calabresa no Erick Bar ou no Winduk; quem sabe até uma pizza lá no Kazebre? Mas tudo muito rapidinho e muito longe da linha do bonde do Campo Belo, pois às 22h, nem mais um minuto, elas deveriam estar de volta aos seus lares, sãs e salvas, mas um pouco amassadas e com a maquilagem desfigurada.

Despedíamos-nos aos portões (e se eles pudessem falar…). Saíamos, assim, de volta para nossas casas, pisando duro, e loucos para que o sábado chegasse o mais depressa possível.

Havia algumas ocasiões em que os pais nos convidavam a entrar, para, assim, poderem avaliar "como as coisas andavam" e quais as perspectivas para um futuro breve.

Primeiro se passava pela fase do "namoro sério". E quando chegávamos ao ponto do "namoro em casa", era porque o noivado já era um assunto falado livremente pela família, e aí sim, tínhamos que apresentar os pais para os pais.

O namoro na sala se dava sempre com a supervisão de alguém da família da menina, e raramente sobrava um amassinho.

O quente, então, era o momento da despedida, quando finalmente a sós, estávamos junto ao velho e calado portão, nosso aliado e cúmplice.

Aos domingos, o expediente era mais puxado, pois era permitido encontrar às 15h, ir ao cinema, ou a um passeio no museu, ou, então, juntar alguns casais amigos, afastar a mesa da sala, enrolar o tapete e botar as bolachas pretas para ferver, em boleros, rumbas, chá chá chá, roks e twistes, num embalo que parecia não ter fim… Até que anunciavam:
– Vamos botar tudo em ordem, pois meu pai já está olhando feio e apontou para o relógio duas vezes!

Bom, vamos lá, e tratar para que a terça-feira à noite chegue o quanto antes, pois, além do bonde do Campo Belo que tínhamos que esperar, ninguém é de ferro.

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