Na marginal Tietê, sob uma árvore na manhã vazia

Recentemente, por ocasião do feriado de 1º de maio, estive na belíssima Jaguariúna, cidade que visito freqüentemente (onde moram meus cunhados Benedito e Norma) e que tem pontos turísticos muito gostosos, como a velha estação e seu famoso butequim, o Parque dos Lagos, o Bar da Praia, a vizinha Pedreira e sua incrível feira de quinquilharias. Além, é claro, do Rio Jaguari (um rio é sempre a coisa mais importante que uma cidade pode ter e não cuidar desses rios como se eles não fossem a coisa mais importante da cidade é, no mínimo, um crime) e suas, águas, e suas capivaras e seus peixes.
No retorno, pela Rodovia dos Bandeirantes, segunda-feira de manhã, após o último pedágio, peguei mais um desses congestionamentos monstros aos quais estamos nos acostumando por absoluta falta de opção. Na marginal Tietê, o congestionamento não continuou igual, antes piorou, e muito. Aí, na calma imposta pela imobilidade, ouvindo um som e pensando na vida, olhei distraidamente à esquerda e foi então que visualizei pessoas morando sob uma mangueira. Pessoas e cães, estes com aspecto de bem melhor alimentados do que aqueles.
Sob a chuva fina, ouvia uma música lenta, e aquelas pessoas ali, a 4 ou 5 metros de mim, eram reais. Haviam assumido toda dor da terra, sintetizado, espremido e transformado em nada, tanto sofrimento como se suas próprias vidas fossem coisas que não lhes dissessem respeito. Ah, é claro que também havia os cães, mas estes, em sua animalidade irracional, apenas aceitavam as migalhas que sobravam e abanavam os rabos agradecidos, os outros, os homens, estes nem rabo tinham pra abanar. Nem rabo.

e-mail do autor: [email protected]