Na Lapa

Desde a minha infância sou apaixonada pela Lapa. Sempre olhei para as ruas com um olhar de encantamento, procurando doçura e vida fecunda pelas avenidas, praças e casas no estilo dos anos 60. Eu não consigo me recordar facilmente dos nomes das ruas, mas, na minha meninice, minha família e eu íamos, preferencialmente aos domingos, visitar o tio Pedro, irmão da minha avó.

Era uma casa simples. Da rua tínhamos que descer alguns degraus para chegar à casa. Lá embaixo havia uma pequena bica d’água. E não tinha água melhor que aquela, límpida, sempre muito fresca e abundante. Não era qualquer água ou qualquer bica: era água da Lapa. De onde viria aquele líquido tão especial? Eu não sei responder. Só sei dizer que na casa do tio Pedro havia uma água divina, que muito chamava a minha atenção e a do meu irmão. Bebíamos repetidas vezes porque realmente ela era especial. Naquela casa vários casamentos aconteceram. Os noivos sempre vinham chegando sorridentes, de braços enlaçados depois da cerimônia na Igreja São João Vianey. Eu me lembro especialmente de um dos casamentos. Pela primeira vez eu vi um bolo de noiva de três andares e me deslumbrei. Como estava lindo e poético!

Mas a Lapa sempre me fez pensar e me encantar. Pequena, eu ia no banco de trás do fusca vermelho do meu pai apreciando todas as coisas, todas as cores, as casas e tudo era belo.

Eu percebia que para melhor contemplar o bairro era preciso silêncio, um respeito maior que qualquer curiosidade infantil.

Bairro de forte presença operária, ainda estão presentes essas marcas pela própria arquitetura do lugar. Os filhos do tio Pedro, por exemplo, eram quase todos operários e eu via nisso muita beleza, pois eles representavam o retrato ainda de um Brasil emigrante, marcado sobretudo pela forte presença italiana, daqueles italianos que vieram com a esperança de fazerem a América, Merica, Merica, Merica, cosa sara questa America?

Em janeiro fiz a minha última viagem a São Paulo, visitando por duas vezes esse bairro maravilhoso, poético, de casas que ainda relembram meados do século passado. Muitas sem garagem, dos tempos em que automóvel era coisa de rico. Fotografei com muito prazer e alegria.

Consegui fazer uma breve visita a uma pequena vila situada na Rua Caio Graco, a última casa do tio Pedro. A vila, hoje, tem um portão, impedindo a entrada de pessoas estranhas. Mas, do seu interior, vinha saindo um senhor já grisalho e eu pedi, gentilmente, que me deixasse entrar para fotografar a casa do tio Pedro. Parece que ele não gostou muito, até desconfiou. Me disse, sem nenhum sorriso: só se for bem rápido. Logicamente concordei. Correndo fui de encontro àquele espaço, onde muita conversa boa acontecia tempos atrás, muitos jogos de canastra entre o tio Pedro, filhos, genros e o meu pai. Fotografei e, novamente, saí correndo para que o senhor não se incomodasse e não me achasse inoportuna.

A foto está aqui, comigo, guardada como retrato de um tempo de muita união, amizade e consideração de uns pelos outros. No meio daquelas conversas invariavelmente acontecia a pausa para o cafezinho bem quente e o pão com manteiga recém-chegado da padaria mais próxima. E nada mais crocante e saboroso que o pão da Lapa.

Depois dessa foto, fomos conhecer um sacolão vizinho. Comemos pastel de frango com requeijão, refrigerante e fomos muito bem recebidos. É impossível conhecer bem um lugar sem experimentar o sabor da comida. E, claro, trouxe dali algumas coisas para a minha casa em Florianópolis, como um pacote de tâmaras, alguns biscoitinhos de leite condensado… e isso para esticar ainda mais o sabor da viagem, do lugar, tentando manter acesa a luz da saudade e de um dos melhores lugares do mundo… coisas da Lapa.

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