Na catedral

Desde sempre eu me lembro de entrar na catedral. Foi ali que a tia Norma me crismou naquele janeiro de 1967. Eu não sabia o significado da crisma. Nos meus nove anos de idade eu não me atrevia a perguntar nada a ninguém. A seriedade e sisudez dos adultos ao meu redor eram tais que eu não me sentia digna de atenção e, muito menos, de manifestar a minha ignorância sobre qualquer assunto.
 
Com olhar de respeito eu admirava a catedral na sua grandiosidade, simbologia e história.
Iniciada a construção em 1913, São Paulo já tinha pressa e se preparava para receber novas ondas de imigrantes, pois a Primeira Guerra não tardaria a eclodir. Aquela monumental obra arquitetônica só ficou pronta, sem as duas torres principais, por ocasião da comemoração do IV Centenário, que o meu pai tanto falava orgulhosamente.
 
O marco zero da cidade sempre me provocou. Foi do meu professor de Física, Sr. Leonardo, que ouvi pela primeira vez a expressão ”marco zero” e o seu significado. Foi ali que comecei a me permitir participar politicamente dos atos contrários à ditadura. Também foi lá que me apaixonei pela figura histórica do Dom Paulo Evaristo. Foi bem ali, próximo à porta de entrada, que dei meu primeiro grito pelas Diretas-Já. Comecei a nascer como cidadã às portas da catedral de São Paulo.
 
Não foram poucas as vezes que me sentei na primeira fileira e tentei visualizar a missa de sétimo dia pelo assassinato de Wladimir Herzog, oficializada pelo D. Paulo. Respirei intensamente as angústias, as indagações, as saudades e os lamentos.
 
Observando os detalhes, a pulsação do lugar, as batidas compassadas das almas inquietas, uma mulher de aparência simples se aproximou e se sentou ao meu lado. Achei estranho, em um espaço daquele tamanho, a mulher se juntar a mim. Ela pediu um dinheiro. Era para comprar um batom.
 
Neguei. Era um tempo que qualquer centavo me era importante. Aquela mulher rapidamente se levantou, saiu resmungando pela lateral esquerda da igreja.
 
E eu olhava para ela, acompanhava seus passos rápidos e decididos com compaixão, embora não pudesse dar-lhe o auxílio. Fiquei pensando no quanto significaria para ela, naquele momento, um batom. Ela se chamaria Maria, Edite, Joana, Elisa? O que importa? Quem sabe estaria recomeçando a vida depois de um romance mal acabado. Ou, de coração partido, haveria de se mostrar forte. Quem sabe estava tentando começar a se respeitar, a se amar, se dar algum valor?
 
A mulher resolveu pedir para a pessoa errada. Infelizmente! Momento delicado para mim, com uma lista de compromissos imperiosa a me chamar.
 
Se eu pudesse lhe pedir desculpas… Ah! Como isso me faria bem! Se ela aceitasse, se compreendesse a minha situação naquele início dos anos 80! Desemprego, inflação, roubalheira para todo lado, além da desesperança. Não! Eu não poderia lhe dar aquele batom. Definitivamente não.
 
Maria, Edite, Joana ou Elisa… Não importa o seu suposto nome: me perdoe. Mulher como você eu sei o quanto é difícil se recompor de um coração esfrangalhado! Sei que é crucial a gente se arrumar, mostrar ao mundo, como um manifesto de vida, que não morremos, que estamos prontas para o amanhã e que esse amanhã pode ser mais ensolarado e de mar azul.
Que você tenha comprado vários batons, de várias tonalidades e marcas. Que o seu coração esteja inteiro. Que a aprendizado da dor lhe tenha feito mais mulher, saudável emocionalmente e com uma coragem retumbante.
 
Que você esteja linda, arrumada, radiante, exalando brilho e com um coração iluminado, cheio de bênçãos. E muito feliz. E cheia de graça.