Música na escola estadual da Freguesia do Ó

Soa a campainha e o ginásio emudece.
Era assim nos dias de festa ou de qualquer evento presenciado pelo corpo de professores e diretoria, às vezes visitantes, parentes dos alunos, etc.
As arquibancadas de concreto forradas de estudantes num burburinho esfuziante de jovens reunidos fora da sala de aula, motivo para excitação e muito assunto. Mas bastava o toque do professor Juvenal, de educação física, na campainha do palco e era como se ele recolhesse com as mãos o som das vozes. Tal e qual o gesto de Jô Soares quando recolhe o som da sua orquestra para iniciar o programa. Um toque mágico e o silêncio absoluto no ginásio. Os visitantes, quando presentes, assombravam-se com a disciplina. Talvez viesse disto minha grande estranheza quando lecionei na rede municipal e não conseguia falar sozinha para a classe. Para os alunos é normal conversar enquanto alguém discursa para eles. Daí meu desgaste em tentar demovê-los dessa idéia.
Vinha algum discurso, depois o som do salto alto descendo os degraus em direção ao assoalho onde jogávamos basquete, queimada, handball, vôlei. Lá vinha dona Ilse, a professora de música com seu acordeon no colo. De estatura baixa, parecia uma fadinha, ruiva e rechonchudinha, o que não a impedia de circular pela área do ginásio em todo seu cumprimento para coordenar a música que os alunos cantavam. Uma mão dedilhava os botões do acordeon, a outra se erguia feito batuta coordenando sua orquestra de cantores:
Do Jácomo Stávale somos…
E a pequena mão ia se abaixando, feito folha caindo ao vento, indicando para suavizar a voz ao cantar:
Sementeiras que hão de medrar.
E a mão se erguia novamente para fazer a voz combinar com o orgulho e a decisão:
É família feliz que compomos,
Sobre a mesma bandeira a marchar.
Marcharemos assim confiantes,
Sem medir sacrifícios em vão…
E por aí vai.
Não é necessário transcrever a letra completa do Hino da EE Professor Jácomo Stavale, localizada numa rua de nome curioso – Manoel Madruga – no bairro da Freguesia do Ó. Foi lá que estudei durante 7 anos: quatro do ginásio e 3 do colegial, como se chamavam naquela época. Recebeu o nome do professor de matemática (1882-1956), formado pela Poli e autor de importantes livros didáticos.
Cantávamos o Hino Nacional e outras músicas. Mas a inesquecível foi aquela composta em 1963 pelo carioca Nilton de Souza, conhecido até hoje por Niltinho Tristeza. Música de dor de cotovelo que ele fez em circunstância do rompimento com a namorada Neusa, com quem vivia há 42 anos. Fez sucesso em 1966 nas rádios, mas foi difundida pelo Brasil na voz de Jair Rodrigues, que repetia com gosto e charme certas vogais: Triste-ê-za, por favor vá embó-ó-ra, minha alma que chó-ó-ra… Menos nós que, segundo orientação de D. Ilse, devíamos cortar o rebolado da música economizando as vogais: Triste-za, por favor vá embo-ra. Era uma “tristeza” não poder cantar com a mesma alegria de Jair e até hoje, quando vou cantar a música, parece que ela ainda me corrige.
Também foi ela que ensaiou uma pequena banda da qual participei tocando “coco”. Na certa minha habilidade era propícia só para esse instrumento. Mas eu amei. Fizemos apresentações nos quatro períodos cantando músicas sobre as regiões do Brasil: “Peixe Vivo” para Minas Gerais, “São Paulo da garoa” para a capital e outras das quais não recordo.
Também pertenci a uma turma que se apresentou no Palácio do governo para cantar um hino à cidade de São Paulo, composto (se não me engano) pela própria D. Ilse, em parceria com a professora de português Bárbara Vasconcelos de Carvalho (que faz jus a outro texto).
Nós, semi-adolescentes, atrás do palco e da mesa de autoridades… Foi meio cansativo. A tensão, aliada à demora do evento, criaram em mim a necessidade de usar o toalete. Meus rins sempre funcionando muito bem, graças a Deus…
Tenho orgulho de lembrar e narrar essas particularidades muito curiosas para uma escola estadual.
Além da pouca disponibilidade de escolas públicas na época, ela era muito concorrida por ser considerada muito boa. Passei raspando no exame de admissão, após concluir o primário em outra escola estadual.
Foi realmente marcante estudar lá. Um interminável número de lembranças que vêm à tona e me inspiram a comentar: a sala de música, a de nº. 20, no andar de cima, ao final do corredor; no extremo oposto do mesmo, o laboratório, onde um dia dissecamos um olho de boi, em outro uma flor – de palma, me parece. Aulas de francês no primeiro ano do ginásio. Filosofia, com dona Ivone, que se tornou ídola, amiga e conselheira das alunas; Latim com professor Homero que hoje leciona na Faculdade de Letras da USP e muitas outras pérolas que tornariam este texto por demais extenso. Fica para um próximo capítulo.
Hoje as escolas públicas têm muitos recursos materiais, como por exemplo, a sala de informática, além do material didático distribuído, do uniforme cujo uso não é obrigatório. Na nossa época era o aluno que cumpria com as despesas de tudo.
Deveria haver um meio termo entre passado e presente para que se garantissem os direitos dos alunos, sem que os mesmos se privassem dos seus deveres para com a escola, professores, funcionários e etc. Já ouvi dizer de pares de tênis pendurados em fios próximos a elas, material jogado fora por vergonha de usar e outras constatações desagradáveis.
Não faltam só as aulas de música, filosofia, educação física, com variedades de esportes… Faltam decência e consciência para valorizar e respeitar a escola e tudo em que ela implica.
Mas de desilusões também se vive. Resta olhar para onde a música nos chama e a saudade faz cantar nossas pérolas. Assim caminha a nossa luta e para ela é que vivemos.

e-mail da autora: [email protected]