Móveis Teperman – Uma Fábrica de Sonhos…

Todo o momento de paz e tranquilidade é propício para uma reflexão de nossas saudades e, cotidianamente, temos essa prática. Relembramos nossos tempos passados, pessoas, lugares, amizades, antigos empregos e colegas de trabalho. Hoje, minhas saudades recaem justamente em um dos momentos mais pitorescos de minha vida profissional em minha juventude, quando trabalhava em uma das mais clássicas fábricas de móveis que o Brasil abrigava e ainda hoje abriga, a Móveis Teperman.

Inicialmente instalada na Rua Marina Crespi, na Mooca (hoje tem o seu parque industrial na cidade de Santa Isabel), com 'show room' na Avenida Rangel Pestana, cujas vitrines expunham o 'supra-sumo' do mobiliário doméstico, ao alcance dos mais abastados, pois eram muito caros. Seus produtos também eram destinados ao comércio em geral com a confecção de divisórias, poltronas, cadeiras, armários e estantes, mesas e 'bireaux's', algumas com a licença exclusiva do designer americano Hermann Miller, cujos produtos mobiliaram muitos famosos e nem tão famosos escritórios, além de prefeituras, emissoras de rádio e televisão e alguns particulares.

A Ford do Brasil também mereceu a atenção da Teperman ao fabricar, com exclusividade, os bancos (aquilo não era banco e sim sofás) dos Galaxies LTD e Landaus, na década de 70. Nesta mesma época, participei ativamente das encomendas de todo o mobiliário da nova Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo, em que todos os setores daquela municipalidade foram padronizados com os produtos da Teperman. Móveis e divisórias foram confeccionados sob medida, com a supervisão dos criadores, acompanhados dos estudos de otimização e aproveitamento dos espaços com a funcionalidade de seus produtos.

Meu começo na fábrica deu-se no setor de faturamento, onde extraía as notas fiscais de vendas dos produtos para, tempos depois, ser promovido para o setor de despacho, escoando a produção da fábrica para os diversos clientes da capital e fora dela e, das amizades que conquistei nesse período, lá estavam o Ivanildo Taglieri, meu chefe no setor comercial, Mercedes Tomazelli, secretária executiva dos diretores Drs. Ovídio Basile e Isaac Teperman, seu Carlos do setor de compras, Carlos Mazzoti do setor comercial, seu Helvécio e 'Lérdo', motorista do caminhão de entregas (só não me recordo de seu nome).

O velho Leon (que comprou um belo Dodge Dart, sensação na época) e até o dublador do 'Agente 86', Bruno Silurzo Neto, que nos encantava com o seu personagem e tínhamos que 'arranjar-lhe' uma 'Agente 99' para dar mais vida à brincadeira. No 'show room' da Rangel Pestana ficava a matriarca do clã, dona Malvina Teperman, uma senhora já bem avançada na idade, mas de um carisma e simpatia ímpar. Dos costumes de cada um, o Dr, Ovídio gostava de charutos e tinha uma postura altiva, mas não distante de seus comandados. Muito simpático e bom ouvidor, tinha sempre uma palavra de ânimo e de incentivo para todos.
O Dr. Isaac tinha uma postura mais tímida. De poucas palavras, dividia as responsabilidades com o Dr. Ovídio nos destinos da fábrica. De perfil conservador, era proprietário de um Karmann Ghia 'TC' e não passava dos cinquenta quilômetros por hora. O meu primeiro chefe, Ivanildo, fazia faculdade de direito e era feliz proprietário de um DKW 'saia e blusa' e, por vezes, me dava carona no final do expediente. A Mercedes também 'pongava' nessa carona já que cursava à noite também.

Um dos grandes colegas, dos muitos que tive por lá, foi Carlos Mazzotti, que adquiriu uma bela Variant TL, a primeira da década de setenta (aquela com faróis quadrados), sem falar do Leon com o seu novo Dodge Dart Gran Sedan, objeto de paixão na época a qualquer aficionado por carros, como eu. Outra figura que se destacava na fábrica era o 'General' Moziul Lima, que era diretor industrial e responsável pela produção. De atitudes firmes e alteridade, distribuía orientações a todos para a melhor qualidade do produto, num rígido controle de qualidade.

De todos os personagens que citei aqui e até os que não citei, mas que tiveram a sua importância, vou me deter especificamente em alguém que, infelizmente, teve um trágico fim aqui na Bahia. Refiro-me à pessoa de Enéas Basile, filho do Dr. Ovídio, que tinha a função de supervisor de vendas na fábrica e que, após sua aposentadoria, 'fugiu' de São Paulo por medo da violência e foi brutalmente alvejado a tiros por ladrões em um bairro de Salvador em meados de junho de 2003 e vindo a falecer em 13 de julho do mesmo ano, deixando perplexa toda sua família, principalmente sua devotada filha Marina. Ironia do destino.

À época do trágico acontecimento, apresentei meus sentimentos à família no momento em que ainda estava no hospital e com a expectativa de seu restabelecimento, o que infelizmente não ocorreu, restando tão somente lamentar a perda de alguém que, temeroso da crescente agressividade urbana, buscou um lugar tranquilo e seguro e deparou-se com a violência que sempre quis evitar, tornando-se mais um na estatística da insegurança de nossas cidades.

Assim foi a Teperman. A minha Teperman de grandes saudades da rua pacata do bairro da Mooca. Uma empresa que, para mim, poderia classificá-la como a 'Rolls Royce' dos móveis domésticos e comerciais e de uma 'família' unida, integrada que foi (e creio ainda é), na importância de cada um em suas mais variadas funções. Do mais humilde ao mais destacado.

Obrigado Teperman, mesmo pelo pouco tempo que juntos estivemos, por fazer parte de meu desenvolvimento e agora, por trazer estas deliciosas saudades.

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