Morro do Querosene, amigo que embalou minha infância, palco de passagens tristes e alegres, de aventuras mil.
Nasci em uma casa amarela ao lado do campo do Falcão, que reinava absoluto no alto do morro. Aos domingos de jogo, quando a bola não caía na casa da família Pagani, caía na minha casa; quando isto acontecia, normalmente, ou era o Beiço de Mula, ou o Paulinho Fubeca que vinha recuperá-la.
Às vezes, principalmente em domingos de festivais, o pau quebrava e polícia chegava na famosa baratinha preta e branca, para acalmar os ânimos.
Da janela de casa dava para ver o trem passando, com seu barulho característico, entre os boqueirões (barranco de lado a lado).
Meu pai, na companhia de amigos como Beiço, Pedrão, Elpídio, Tonicão, e outros, tinha como parada obrigatória a vendinha, onde muitas vezes fui com minha mãe de madrugada buscá-lo sob protestos.
No carnaval, o Cordão do Zulu (mais tarde escola de samba) animava o morro. Meu primo Lilo no surdo, minha tia Cota sempre com um vestido cheio de lantejoulas, que o Deca colocava uma a uma.
Todos eram conhecidos, e a solidariedade imperava. Uma das primeiras casas a ter televisão no morro foi a do Nelson padeiro, e nem é preciso dizer que, nas noites, a casa ficava lotada de vizinhos para assistir à novela das oito.
Personagens como tia Cota, tio Otávio, Nininho e família, Dona Nair costureira e família, e tantos outros que não haveria espaço para mencionar, fizeram daquele pedaço de chão, meu reino encantado.
Hoje praticamente não existe mais nada, pois o progresso acabou com tudo e a maioria dos personagens citados não estão mais em nosso meio, mas foi uma época maravilhosa que, com certeza, vai acompanhar em forma de saudade aqueles que fizeram parte da história de um lugar, carinhosamente chamado de Morro do Querosene.
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