As horas passam e eu a espera de uma breve reunião em meu consultório. Em minha sala resolvo entrar neste site e assim "passar o tempo" com o tempo passado pelos meus colegas. Após algumas leituras entre risos e comoção, resolvo também participar com mais um texto.
Remexo na memória que preguiçosamente neste sábado chuvoso de quase verão se recusa a colaborar com imagens, sensações, odores, ou seja, qualquer delicadeza que me faça deslizar os dedos sobre o teclado e dividir um acontecimento vivido ou ouvido por mim.
Respiro um tanto aflita enquanto encaro a tela iluminada de meu laptop e ao som de Ivete Sangalo em tom baixinho me deixo levar pela letra poética e como a despertar minha mente, em um simbólico espreguiçar libera em uma fresta de imagem, um acontecimento recente.
Reluto em descrever, pois sei que me emocionarei, assim como o fiz no momento passado. “Sorrisos e palavras são tão fáceis”, diz Ivete. Sim posso dizer que o caso liberado era uma mistura de sorrisos e palavras, contidos em paginas lindamente escritas por uma quase parenta distante, que para escapar de uma depressão pesada, como descreve na introdução de seu delicioso manuscrito, resolveu compartilhar assim como nós os momentos vividos pelos seus queridos parentes e amigos além de alguns não tão amigos mas que no contexto de suas vidas contribuíram para a bela narrativa.
A bela canção de Ivete já se foi e ouço algo no tom de rock me forçando a sair do embalo nostálgico.
Os cenários acontecem entre, Avaí, Garça, Marília e mais algumas outras cidadezinhas, que no momento me foge a memória. Ela, a minha memória, não está muito receptiva. E que continua em São Paulo no final da década de quarenta, cinqüenta e concluindo na década de noventa, quando do passamento de seu querido irmão Núncio Pereira de Mello, meu sogro.
Essa quase parenta, como já disse acima viria a ser uma das tias avós de minhas filhas. Figura marcante, não só pela aparência taluda como dona de um perfil grego, aliás descrito com muito apreço através de uma crônica onde revela que, após uma discussão entre irmãs, descobriu que possuía nariz de papagaio e pernas de saracura. Constatada pela jovem na época a tristeza estampada no espelho da humilde casa disse que carregou pesadamente este veredicto a sua pessoa.
Mas tal fato não permaneceu por muito tempo, pois em um sarau no qual um dos convidados era nada menos do que Monteiro Lobato, o mesmo quis saber quem era aquela moça de perfil grego. Através de breve relato a parenta em questão disse que na sua cidade era chamado de perfil de papagaio. Monteiro Lobato de imediato recusou tal afirmação e em um lance sábio a jovem pediu que o mesmo escrevesse suas considerações para que ela pudesse mostrar a dona de tal afirmação o nobre elogio.
E assim foi feito com esmero e graça a declaração de próprio punho uma exaltação ao belo e enigmático perfil grego da jovem em questão. Registrava no texto que ainda tinha em sua carteira tal bilhete com assinatura do ilustre convidado.
Uma das colegas de espaço adentra a minha sala comunicando que a reunião vai começar, assim encerro nosso contato com saudade, dos momentos que também pude, ainda jovem e recém casada, conviver com tão encantadora senhora.
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