Monalisa da Vila Maria

A Vila Maria, a baixa, não tinha (e não tem) muitas ladeiras. Um trecho da Rua da Gávea, outro da Rua Araritaguaba, um segmento da Rua Curuçá e uma ou outra descida. A quem estranhou quando leu descida e não subida faço a pergunta:
– "Já pilotou carrinho de rolimã?”

Se a resposta for "sim" é porque já sabe que meninos nem ligam para subidas, querem mesmo é saber de descidas. Quando nossa avenida principal, a Avenida Guilherme Cotching, termina, em frente à Igreja Candelária, começa a subida (ou será que termina a descida?) da Rua Mere Amedea, rumo à Vila Maria Alta, terminando na Praça Cosmorama. A praça era conhecida, paulistanamente, como "Balão do Bonde". Os garotos aprendiam a pilotar o carrinho nas ruas da parte baixa do bairro, depois de adquirir certa prática e muitas cicatrizes nos joelhos e arredores é que se aventuravam a encarar a Mere Amedea.

Carlinhos e Tonhão eram vizinhos e amigos de não se largarem: escola, missa, matinê no Cine Candelária, festinhas, futebol e… Carrinho de rolimã. Tinham mais uma coisa em comum: a paixão pela Izildinha. Amor não correspondido, claro, eram crianças e mais da metade dos meninos da rua gostavam da moreninha. Ela? Nem percebia! Ficava por horas na janela, assistindo os moleques subindo com o carrinho sob o braço e descendo a toda. Carlinhos acha que a menina dá bola para ele, já o Tonhão não acha nada e jura que a Izildinha é inatingível.

O homem pisou na lua em 1969. Correto? Então posso dizer que, àquela época, o Tonhão achava a bonitinha tão longe quanto à lua. Sabe como é? Você olha, acha linda, estica o braço, abre a mão, chama, uiva e, mesmo assim ela fica lá, quietinha na janela do céu. Nem pisca!

Carlinhos é prático e tem certeza que, mais cedo ou mais tarde, vai namorar a quietinha. Malandro, passa e para sob a janela da moreninha. Da sua boca saem coisas como: "Como vai?"; "Quando vamos passear?"; "Foi à missa no domingo?" e mais uma e outra baboseira. A morena responde, educada e sem interesse. E não é que uma fuxiqueira andou espalhando que a garotinha da janela queria muito ser convidada para a matinê? E é isso que chegou aos ouvidos apurados do Carlinhos. Chegou mais: a fuxiqueira jurava que o escolhido era o Tonhão.

O Tonhão, gordo e grande, um brutamonte! Ele, o Carlinhos, é magro, esbelto, um atleta! Pena que não consegue ganhar do Tonhão na corrida de carrinhos. A Rua Horácio de Castilho é na descida e tanto e termina na Rua Mere Amedea. A molecada desce com toda a velocidade possível e, ao terminar a rua, vira à direita na Rua Mere Amedea, subindo até que o carrinho perca a celeridade e pare. Quem vira à esquerda é obrigado a abrir a curva, sob pena de capotamento, dar de frente com os trilhos do bonde e sabe-se lá onde vai parar antes de baixar no hospital.

Pois saibam, quantos essas linhas leem, que Tonhão e Carlinhos conseguem fazer a curva e descem a rua até atingirem a Igreja e adentrar a Avenida Guilherme Cotching. A quanto por hora? Ninguém sabe. O que a garotada sabe é que Tonhão sempre chega à frente do amigo. Carlinhos anda com uma caderneta e um toco de lápis, anota, desenha, escreve, faz contas e resolve que Tonhão só consegue ganhar porque é mais pesado:
– "Se Santos Dumont tivesse o seu peso, o mundo não conheceria o avião".

Domingo está chegando e, com ele, a matinê do Candelária. Carlinhos saca seu caderninho, põe o Tonhão sentado na calçada e dispara:
-“Fui visitar minha tia na Rua Augusta e vi uma coisa… Um cara sentado em barra de gelo, dessa que o leiteiro deixa em frente à padaria toda manhã, descendo a rua em cima do trilho do bonde…”.
-“E não cai?”
-“Claro que não, o gelo vai derretendo e, com o peso do cara, se encaixa no trilho. Entendeu? Não tem perigo nenhum. Tenho tudo anotado e conferido: o peso da barra e do cara, a largura do trilho e mais outros detalhes. É fácil. Já pensou, Tonhão? Que gostoso deslizar até a Igreja…”.
-“Se é tão fácil, porque não faz?”
-“Por dois motivos. Primeiro: o sujeito tem que ser pesado para fazer pressão no gelo, daí a barra se encaixa, fica bem firme. Não serve para um magrelo como eu. Segundo: soube que a Izildinha quer ir ao cinema e, como sou seu amigo, vou dar a chance de você se exibir para a menina. Ela vai adorar e você a convida para um cineminha… Ta interessado?”
-“Pode ser… Mas como conseguimos a barra de gelo?”
-“Já disse, tenho tudo anotado. A gente acorda bem cedo, pode ser amanhã mesmo, pega a barra na Padaria Santo Antonio, antes de abrir, cobre com bastante serragem e esconde no terreno ao lado. Quando a Izildinha sair na janela você começa a descida, passa por ela e faz uma graça qualquer. Depois é só voltar e pegar seu premio, a menina vai ficar louquinha por você… Mas, se está com medo… deixa pra lá…”.
-“Medo? Eu? Vou mostrar amanhã”.
-“Combinado Tonhão, amanhã”.

Era sábado e Izildinha surgiu na janela, Carlinhos assobiou e se escondeu atrás de um poste. Segundos depois surge Tonhão tentando se equilibrar na barra de gelo, um verdadeiro artista. Izildinha olha espantada. Na primeira curva, bem em frente à janela da menina, barra para a esquerda e Tonhão para a direita, nem deu tempo de acenar para a garota. Entre uma capotada e outra a última cena que viu, de ponta cabeça, foi a menina na janela. Carlinhos
correu para acudir e, antes que chegasse ao local do acidente, a menina lá estava chamando pelo amigo. Tonhão abriu os olhos e a primeira cena que viu parecia muito com a última: a moreninha com seus olhos grandes:
-“Izildinha… É você… estava de cabeça para baixo…”.
-“Seu bobo, você estava capotando…”.
-“Parecia aquele quadro que a professora mostrou… A moça que sorri sem abrir os beiços… A janela era a moldura”.
-“Não são beiços, Toninho… são lábios e o nome é Monalisa…”.

Carlinhos resolveu intervir:
-“Izildinha, é melhor eu levar o Tonhão para casa… Pode infeccionar… Vai ter febre, nem vai dar para ir ao cinema. Se você não tiver companhia eu posso…”.
-“Não! Vou com o Toninho, nem que seja de muletas… O que deu na sua cabeça de fazer essa loucura?”.
-“É que o Carlinhos tinha estudado tudo, não podia dar erro… Na Rua Augusta…”

Os olhos da menina ficaram ainda maiores e soltavam faíscas:
-“Rua Augusta… Ele estudou muito bem… A Rua Augusta é reta, Toninho, ele não avisou?”.

Não, o danado não avisou. Izildinha apoiou Tonhão e o levou para casa, prometeu passar mercúrio onde fosse preciso:
– "Se arder eu sopro, Toninho".

Antes de entrar em casa, Tonhão olhou para trás e viu Carlinhos chutar o ar com raiva.

Meninas! Vai entender…

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