"Molecadas do Bixiga"

Século XXI. Estamos vivendo os momentos das novas e revolucionárias tecnologias que as indústrias podem nos oferecer com as novidades eletrônicas para o conforto e as facilidades da vida moderna. São i-pod's, i-pad's, tablet's, um tal de “wi-fi” e o estranhíssimo “bluetooth”(que muita gente chama de “blutuf”), que vem aplicado nos celulares e “smartphones” da vida e, a cada momento, uma novidade se apresenta (o que vão inventar agora?).

Já se passaram 61 anos desde o meu nascimento, nos meados do século XX, e minha infância não se atrelou a nenhum computador (mesmo com o advento da agora já quase falida Hatari, pioneira dos tais “games” eletrônicos, que teve o seu “boom” no final da década de 70. Também, nesta época eu já contava com meus vinte e tantos anos, mas ainda era um garotão, por assim se dizer.

Contudo e diferentemente da molecada de hoje em dia, a minha infância e consequente adolescência foi, por assim dizer, melhor vivida, pois não ficávamos presos na frente de um monitor de 14, 15, 17 ou 19 polegadas, em posição quase que estática, observando o cursor das letras preenchendo os espaços vazios quando se escrevesse algo ou, praticando contorcionismos tendo às mãos um “joy stick” para “cacetar” um inimigo virtual em batalhas fictícias ou em combates de “street figther”, em que a supremacia do “meu” lutador nocauteava em três ou quatro golpes todos os oponentes.

Nada disso. Minha infância foi mais salutar e liberal e menos rebelde, pois tínhamos a faculdade da disciplina (ao nosso modo, mas tínhamos) e, funcionava assim: Pela manhã, escola. Ao chegar em casa almoçávamos e depois de um breve descanso, fazíamos as lições do colégio e depois rua. Havia aqueles que (assim como eu) deixavam seus deveres escolares para a noite. No meu caso, o ar noturno era mais suave e inspirador e fazia a minha mente se abrir melhor para entender as questões e assuntos escolares.

Já na rua, encontrava-me com outros colegas e amigos e elaborávamos os planos de nossas brincadeiras. Carrinhos de rolimãs nas calçadas, para o desespero dos pedestres e da velha “Conchetta”, uma italiana ranzinza que nos esperava munida de um vassourão (daqueles que as bruxas voam) e nos sapecava quando passávamos por sua calçada.

Quando as tais “vassouradas” ameaçavam mais freneticamente, partíamos para outras bandas e singrávamos pelas ruas do Bixiga até a famosa Rua Silvia que, por ter um leve e longo declive, era totalmente asfaltada e nos proporcionava um prazer inenarrável com nossas disputas de corridas. Porém, todo o cuidado era pouco, pois com a velocidade que os tais carrinhos atingiam, era quase costumeiro chegarmos um tanto quanto “esfolados” nos dedos e nas roupas pelas quedas que tomávamos e aí, invariavelmente, o “pau” quebrava em casa mesmo.

Mãe-da-rua, piques, cachuleta e pula-sela eram outras brincadeiras que tínhamos e eu, por ser o mais alto da turma, sempre era destacado para ser a “sela” e oferecer um grau maior de dificuldade quando o “líder” determinava: “pular o prédio Martinelli…” Esta determinação era um terror para os “mais pequenos” que, me encarando pediam:
– “Bracciolla (este era o meu apelido), dá uma força e abaixa um pouquinho só, vai.”
Mas, que nada. Eu tava era a fim de sair da “inglória” posição de “sela” e, irremediavelmente algum “pequeno” não conseguia “me pular”.

As meninas que faziam parte de nossa turminha, ainda pulavam “amarelinha” ou brincavam de “passa-anel”, “queimada” ou “pomponeta”. Tinha também uma brincadeira em que reunia-se um certo número de cadeiras (uma a menos das participantes) que, ao ritmo de alguma música ou versinho e, ao seu final, todas tinham que se sentar. Quem sobrasse em pé “pagaria” uma prenda que poderia ser um verso ou um trecho de música ou uma adivinhação.

Outra brincadeira, que mais gostávamos, era a “prova de conhecimentos gerais” que praticávamos assim que nos cansássemos das brincadeiras com atividades físicas, nos reuníamos e fazíamos perguntas uns aos outros sobre todo e qualquer assunto da atualidade ou do passado, passando por história, geografia, matemática, ciências, etc.

Consistiam as perguntas em “quantas estrelas tem a bandeira nacional”, ou “quantos estados e territórios tem o Brasil (e suas respectivas capitais), nome dos presidentes da república, quem foi “fulano”, o que fez “cicrano” e por aí ia”. Não era uma gincana, mas quem acumulasse maior número de acertos, era tido como o mais intelectual da turma (a modéstia me impede de dizer quem mais se destacava nesta área – risos) e era merecedor de todas as honrarias e títulos.

Não pensem que estes momentos infanto-juvenis eram só de bons comportamentos. Também fomos, por certos momentos delinquentes, mas numa escala muito moderada quando invadíamos as padarias do bairro para, de maneira sutil e “desavergonhadamente surrupiar” dos balcões o saboroso e inesquecível bolo Pullman ou sovetes da Kibon. Era errado, eu sei, mas quem não “delinqüiu” um instante só em sua vida?

Chocar bonde, apertar campainhas das casas e sair correndo, roubar frutas nas barracas das feiras, invadir pomares alheios (quantos caquis, figos e nêsperas comemos), arrumar briga com a turma do outro bairro, soltar balões em épocas das festas juninas, empinar papagaio, jogar bola no “campinho” (ou na quadra do Bôca), escorregar pelo barranco com papelões, fazer “troca-troca” de figurinhas ou gibis (seus mentes poluídas), nossa, quanta coisa boa, até que o primeiro sinal da “maturidade” se apresentasse, literalmente em nossas faces. Sim, ela mesma, a bendita “espinha” denunciava que já estaríamos “quase” pronto para a vida adulta e aí, o amor. Ah, o amor. Quando vinha, chegava arrebatador, tirando o sono, deixando sem fome, nos tornando distraídos, trôpegos e muitas vezes nos fazia sofrer pela timidez que desencorajava de nos aproximar da possível pretendida, com o temor de levar uma “tábua de rejeição”.

Hoje, estamos no século XXI. Para muitos de nós, já se passaram quase meio séculos dessas saudades e ainda contemplamos as lembranças, gostosas saudades, de um tempo vivido em que éramos felizes e sabíamos. Mas, quem fala disso e aqui escreve não tem vergonha de assumir a modernidade dos dias atuais, pois estou na frente de um monitor de l5 polegadas, em posição quase que estática, observando o cursor das letras preencherem os espaços em branco dentro de uma caixa de textos, mas, mesmo assim, feliz, pois parece que estou a rabiscar em uma folha de caderno (sem pautas, é verdade), as saudades desses tempos de molecagem do Bixiga.

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