Mistérios do Natal

Eu e meu amigo Luiz Tadeu praticamente crescemos juntos. Éramos vizinhos de residência e também de nascimento, minha mãe e a mãe dele foram ambas assistidas em parto, quase no mesmo dia e no mesmo horário pela mesma parteira, na época muito conhecida e estimada por todas as famílias dos moradores da Freguesia do Ó, chamava-se: Dona Zelinda.

Dona Zelinda depois de atender a mãe de Luiz Tadeu, e isso perto das 23h do dia 26, correu para minha casa que ficava ao lado, para fazer o parto de minha mãe. Era eu que chegava meio atrasado, perto de 01h e obrigado, por isso, a nascer no dia seguinte, no dia 27 de Dezembro – dia de dedicado a São João Evangelista o discípulo predileto de Jesus. Em uma linda noite de céu estrelado do dezembro de 1938, sei disso por que mamãe sempre falou que quando eu nasci ela viu estrelas (risos). Se a parteira Dona Zelinda tivesse atendido minha mãe antes da mãe do Luiz Tadeu eu seria algumas horas mais velho do que ele, como isso não aconteceu ele ficou sendo o mais velho.

Estudávamos no mesmo Grupo Escolar, jogávamos futebol pelas vizinhanças, como Itaberaba, Minho velho, Vila Brasilândia, Lapa, Vila Palmeiras, Pirituba, e estávamos juntos em quase todas as brincadeiras da adolescência e mocidade, como também tínhamos os mesmos amigos, os pais dele se davam muito bem com os meus, assim como os meus com os dele.

Só havia uma diferença entre nós, isso a partir dos sete aninhos de idade, ele não acreditava e acho que nunca acreditou na existência de Papai Noel e eu, acreditava. Isso aconteceu até os meus nove anos, depois eu passei a concordar com ele de que Papai Noel não existia mesmo. Pois a gente nunca tinha visto um que fosse de verdade entregando presentes nas vésperas de Natal, em nossas casas ou pelas vizinhanças.

Íamos ao Cine Metro Juntos assistir Tom e Jerry, Tarzan e mais tarde Jim das Selvas com o mesmo ator, Johnny Weissmuller no Cine Avenida bem em frente ao Largo Paissandu e seu mictório (cheiroso) e ao lado da padaria Ayrosa, onde na saída do cinema sempre aproveitávamos para comer uns pãezinhos feitos na hora, e quando havia uma graninha extra, íamos até a Salada Paulista. Um dia peguei uma nota de cinquenta cruzeiros do cofrinho kanguru-mirim de minha irmã e fomos no mesmo dia em dois cinemas: ao Marabá e Ipiranga. Foi uma farra com o patrocínio dos “50 paus” da minha irmã, que só veio a saber disso dois anos depois, quando ela foi depositar suas economias no Banco F. Munhoz.

A partir do ano de 195,8 quando mudei de casa e fui morar no mesmo bairro, porém em outra rua, passamos então a nos encontrar menos, mas assim mesmo, às vezes, aos finais de semana nos víamos e batíamos aqueles papos.

Mais tarde ele se casou e mudou de bairro, eu também, e praticamente não nos vimos mais. O tempo passou soube por intermédio de outros amigos que ele estava morando em Pinheiros perto da Vila Madalena, e os anos foram passando… Em 1987 encontrei o mesmo no Largo da Matriz da Freguesia, onde fui passar o Natal na casa de minha irmã Jurema, aquela do “cinquentinha” (risos).

Foi uma festa, fazia pelo menos 24 anos que eu não falava com ele, conversamos por perto de 3 horas, ele me falou de sua família dos três filhos, o mais velho já bem casado, e é claro dos dois netos. E como não poderia deixar de ser, falamos também do nosso passado… Como era dia de Natal, eu me lembrei que ele nunca acreditou em Papai Noel, resolvi perguntar se ele havia mostrado isso também aos filhos e também aos netos.

Foi então para minha surpresa, que descobri que meu querido amigo e velho companheiro Luiz Tadeu, estava mudado… Que depois de vários anos descrente de Papai Noel, naquele momento, ele era o maior crente em Papai Noel do mundo!

Achei que isso aconteceu em função do nascimento dos netos. Mas não, me disse ele! Foi algo que aconteceu uns dez meses antes do nascimento de seu segundo filho, que nasceu em 1974. Algo que mexeu com seu interior e despertou dentro dele uma felicidade quase infantil, algo que sempre esteve morto em seu coração, desde a mais tenra idade. E o que é mais interessante, envolvendo o dia de Natal e o Papai Noel.

E então ouvi o seu relato que muito me emocionou e comoveu. Mas confesso sinceramente que eu não gostaria de acabar acreditando em Papai Noel dessa mesma maneira.

Ele me disse que na véspera do Natal de 1973, isto é no dia 24 de dezembro, ele teve um encontro pessoal com Papai Noel.

Falou que no dia 24, ao voltar para casa, por que havia saído com seus filhos e voltava da casa de seus pais, na estrada perto de Jundiaí, bateu o seu Fusca. O acidente não foi grave, mas o carro não estava em condições de andar e ele foi levado com seus filhos pelo guincho até um funileiro mais próximo para que o mesmo desse um jeito de colocar o carro em condições de poder chegar até São Paulo, a tempo de estar junto com a esposa, que estava só em casa na Vila Formosa, e como não possuía telefone achava que a mesma estaria super preocupada.

E assim, desesperado e muito preocupado com a esposa, Luiz Tadeu só chegou a casa às 23h30min, praticamente início do dia de Natal, enquanto os filhos dormiam amontoados no banco traseiro do Fusca 71.

Ao parar o carro lentamente em frente a sua casa notou um vulto que saltava da janela de sua casa. Um ladrão pensou… Correu e agarrou o danado quando o mesmo tentava pular o muro da frente de sua casa para ganhar a rua. Mas o cara assustado disse rapidamente:
– “Calma meu amigo, muita calma. Eu sou o Papai Noel, estou apenas entregando os presentes que seus filhos pediram.”

Ele então agradeceu o Papai Noel e nunca mais duvidou de sua existência. Ele só não aceita a forma como as pessoas descrevem o Papai Noel como um velho barbudo usando roupas vermelhas e botas pretas, quando na verdade o verdadeiro Papai Noel segundo ele, usa um conjunto de moletom cinza escuro tênis Nike e não carrega o saco a vista.

Ano passado Luiz Tadeu deixou esse nosso mundo, sem realizar jamais o seu último desejo que era o de poder tirar uma foto com aquele "verdadeiro" Papai Noel.

ET. Essa historia é fictícia, qualquer coincidência com pessoas reais, vivas, mortas ou já em decomposição é mera semelhança.

Bom Natal cheio de alegria e felicidades a todos aqui do site SPMC. E por favor, tomem muito cuidado com o Papai Noel. Quem avisa amigo é!

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