Quem acima dos cinqüenta anos, não estudou em uma escola pública? Naquela época, escola pública era modelo de ensino, mesmo com muitas delas sendo construídas em madeira, principalmente as que ficavam nos bairros emergentes pós Rio Pinheiros e Tietê.
Descrevo a escola que estudei na Vila das Belezas, a mais antiga da Diretoria de Ensino da sul-2, Ginásio Estadual Prof. Renato Braga, que também era de madeira, primeiro escola e bairro no início da Estrada de Itapecerica logo após a Ponte João Dias.
Escola esta que nos fins dos anos 1940 era chamada de Grupo Escolar de Vila das Belezas, a partir do ano de 1956, quando eu ingressei no primeiro ano do curso primário, passou a se chamar Ginásio Estadual Prof. Renato Braga, homenagem ao emérito professor de Santo Amaro, falecido em Março de 1955 que se localizou primeiramente num barracão de madeira na Rua Aristodemo Gazzotti. Toda estrutura do galpão era sustentada por pilares de alvenaria que dava até para os alunos entrarem embaixo para brincar ou esconder das inspetoras de alunos, que nessa época era D. Vilma e D. Maria José, esse vão servia como ventilação e proteção das madeiras do piso da sala de aula. Depois, em 1961, ela mudou-se para a Rua Josefina Moretti, num prédio moderno em alvenaria no mesmo bairro e em 1980 mudou-se novamente agora para a Rua Artur Bliss, ainda no mesmo bairro, onde até o início da década de 1970 essas ruas eram de terra batida. Lembro-me que no final da década 1960 alguns professores vinham para nosso bairro de carro DKV VEMAG um sucesso na época.
Também vale salientar de como eram os sanitários (privadas), era uma construção à parte da escola, lembrando muito os banheiros químicos de hoje, todos enfileirados, cerca de uns seis módulos. Porém, a construção em alvenaria e a fechadura da porta eram de tramela e o vaso sanitário ficava em cima do próprio fosso, sustentado por vigas e piso de madeiras, para desinfetar o local usava-se a velha conhecida creolina (derivado do creosoto), um líquido preto com forte cheiro de ”limpeza”, não sabíamos o que era pior, o cheiro da creolina ou da privada.
Quem não se lembra das carteiras, das lousas, a evolução delas e demais itens de uma sala de aula? São notórias em se comparando com as de hoje, tem carteiras até para canhotos, móveis, de plástico, mas diferentemente dos dias de hoje as carteiras dos anos 1950 eram “coletivas”, sentava-se em até três alunos no mesmo assento, que era de sarrafo de peroba envernizado, parecia banco de jardim público, esses de ferro fundido e na madeira onde se escrevia (tampo) tinha vários furos para colocar o tinteiro ou a própria tinta para poder molhar a pena e escrever, os mais modernos tinham a caneta tinteiro, a mais famosa era a parker, que possuía um cartuchinho de borracha, alguns vinham com uma bombinha para aspirar a tinta do vidro, não havia ainda as esferográficas, também havia no tampo (carteira), um sulco arredondado de ponta a ponta para encaixe dos lápis e canetas.
Os alunos não podiam deixar de trazer o famoso mata borrão, um papel grosso, fibroso e macio para absorver o excesso de tinta que ficava na folha, era ir escrevendo e o mata borrão atrás secando a tinta no papel do caderno brochura, não havia o espiral. Se não usasse o mata borrão o que se havia escrito numa folha ao fechar o caderno ficava carimbado, manchava a outra folha, era comum chegar em casa com as mãos e roupas sujas de tinta.
O uniforme era padrão: camisa branca, calça azul marinho e tênis conga azul marinho também, cabelo com corte americano e empastado de brilhantina glostora, que deixava o cabelo brilhante e duro.
Nos anos 1960, apareceram as carteiras individuais, mas ainda com assento ripado e no final da década as carteiras individuais com os braços enormes com o frontal de chapa de aço tipo cocho para colocar a bolsa e os cadernos.
Nos anos 1950 e 1960, todos estudamos num livro que fez história no ensino que foi o inconfundível, Caminho Suave, que ensinou os primeiros passos da leitura e depois o livro de português, “O bom colegial”, de Lígia de Moura Santos, de 1960, 31ª edição que ainda tenho.
Antes da entrada em sala de aula, formávamos filas em céu aberto e cantávamos o Hino Nacional e em seguida entravamos em sala de aula, quando a professora adentrava o recinto todos ficávamos em pé para recepcioná-la.
Época de provas era gostoso ou até angustioso discutir, brigar, reivindicar, aquele famoso pontinho que podia fazer falta para passar de ano, aprendíamos sozinhos a calcular a média aritmética se íamos ou não passar de ano direto ou ir para o exame final.
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