Quando era garoto, quase adolescente, todos os dias depois da escola jogávamos nossas peladas na rua. A demarcação do nosso campo era feita entre dois postes e para escolher os times nos tirávamos o toque, quem ganhava começava a escolher. Quem normalmente tirava o toque eram os dois goleiros. Aí os melhores eram escolhidos um para cada lado. Como eu não era muito habilidoso com a bola, jogava sempre no gol. E assim, depois de escolhermos cada um o seu time, começava o jogo.
Lá na Rua Caetano Pinto, a gente tinha a preferência por dois campos: durante a semana, no anoitecer, a gente usava o campo na frente da Metalúrgica Metalma, que ficava no fim da rua bem ao lado da Capela de Nossa Senhora de Cassalusse. A razão de escolhermos esse campo era porque a fábrica já estava fechada e não atrapalhávamos ninguém. Já nos fins de semana, no sábado e no domingo, preferíamos o campo dos Laboratórios Fontoura e assim fazíamos nossos jogos com uma bola de borracha que algumas vezes eram cortadas por algum morador de alguma casa que no calor do jogo acabávamos quebrando alguma vidraça.
O meu pai já era taxista e sempre me chamava à atenção quando me via jogando com a molecada e costumava me castigar quando chegava de surpresa e me via na rua jogando. Como eu jogava no gol, eu ficava sempre de olho na Rua Campos Sales e, quando via o seu táxi chegando, abandonava minha posição e ia puxar o saco dele pegando um balde com água e os panos e ia lavar o seu carro. Meus amigos ficavam todos furiosos quando eu abandonava o gol sem avisar ninguém.
Lembro-me de um tempo que com o dinheirinho que meu avô me dava e mais o que ganhava do meu velho, quando lhe lavava o carro, consegui comprar uma bola de capotão, uma Drible Oficial número 5. Antes de estreá-la, fiquei adorando a bola, pois só eu tinha uma igual. Até que um dia, depois de muita insistência dos meus amigos, fomos ao Parque D. Pedro jogar uma “pelada”. Eu não concordava em jogar com aquela bola na rua pelo medo de que quebrassem alguma vidraça e a culpa iria cair nas minhas costas, além disso, a bola ia se arranhar toda no cimento das ruas. Tinha que ser na grama.
Fui eu o Robles, o Aquilino, o Careca, o Bolão, o Nenê da Loja, o Décio e muitos outros que já não recordo, formando dois times. O campo era na frente do Quartel do Exército, lá no parque ao lado do Rio Tamanduateí, era um gramado verdinho próprio para uma boa “pelada”. Fizemos demarcação dos gols com duas pedras, tiramos o toque e escolhemos nossos times. Eu, como de costume, em um dos gols. Começamos a jogar e depois de uns dez minutos de jogo bonito, eu, todo orgulhoso como dono daquela bola de couro, de cor mais para o abóbora, ia dando gritos com o pessoal, para terem cuidado com chutes muito fortes, para que ela não saísse do campo ou que fosse parar no Rio que passava bem ao lado.
Mas com todo o cuidado que eu pedia a todos com a minha bola, do nada, apareceu uma rádio patrulha da Guarda Civil e, com dois guardas, parou do lado do quartel e passou a perseguir, não a nós os garotos, mas a bola. Eu gritando com eles para pegarem a mesma e o Robles segurando ela em suas mãos caminhou em direção a um dos guardas e entregou-a ao policial. Como eu estava do outro lado perto da Rangel Pestana, só me restou chorar pela minha bola novinha em folha, que acabou indo com aqueles dois pilantras, que ao invés de ir atrás de bandidos saiam a perseguir os garotos que jogavam futebol em um parque.
Ainda de longe, os via caminhando de volta para o carro preto e branco, balançando a mesma nas mãos como dizendo: vamos tirar o toque para ver quem fica com ela. Sim! Porque aquela bola que comprei com aquele dinheirinho juntado no sacrifício e me privando de tudo que podia foi para a casa de um daqueles malvados, isso aconteceu comigo lá no saudoso Parque D. Pedro II na terra do futebol.