Minha avó, minha mãe e o nu artístico

Corria o ano de 1957. Como já disse, morava na Rua das Camélias, em Mirandópolis, mas passava quase todos os finais de semana na Lapa, na casa de minha avó. Era lá que meus primos que tinham idade aproximada a minha moravam e eu podia, assim, estar com crianças da minha idade. Além disso, a Vó Carolina era especialista em reunir nos finais de semana.

Para a casa dela acorriam os sobrinhos com filhos e esposas, meus tios, esposas e seus filhos num grande congraçamento familiar. Um congraçamento que chegava a ter aproximadamente umas quarenta ou cinquenta pessoas.

O tio Roque era responsável pelos aperitivos e antepastos servidos antes do almoço. Uma enorme mesa de cavaletes era estendida atravessando as duas grandes salas (a de visita e a de jantar) e substituindo os móveis, para que, como numa Santa Ceia, fossem degustados os raviólis de ricota (feitos artesanalmente pelas mulheres da família) servidos ao sugo (molho que minha avó começava a preparar desde quinta-feira para apurar até o domingo), as carnes assadas, frangos, saladas e outras delícias da famosa cozinha napolitana.

As crianças almoçavam em duas mesas juntadas e colocadas no quintal. Era uma verdadeira farra proporcionada pela matriarca da família.

Eu e meus primos costumávamos brincar no quintal subindo no pessegueiro, inventando casamentos imaginários entre o Jipe (um simpático vira-latas), o cachorro de minha avó e as galinhas que ela mantinha num galinheiro no fundo do quintal, comemorado com bolo de barro com milho e carne moída. Ou então arriscando a pele para subirmos, numa corda de nós amarrada em um gancho, as altas paredes da garagem entrando por uma janelinha, como se fossemos Lanceiros de Bengala escalando os fortes (coisas que víamos nos filmes exibidos no Cine Brasília).

E foi exatamente nessa garagem, cujas paredes eram de cimento queimado (ou barra-lisa), uma garagem de amplas paredes, onde meu talento artístico resolveu se manifestar. A fim de "descolarmos um troquinho" dos parentes, eu e meus primos tivemos uma idéia: eu faria uma série de desenhos e cobraríamos uma entrada para a exibição. Terrível como sempre fui, resolvi desenhar em giz uma série de mais ou menos vinte mulheres peladas espalhadas pelas paredes. Elas estavam ou deitadas, ou se banhando, em pé, penteando os cabelos… mas não havia pudor algum nos meus trabalhos. Como já disse, eu tinha sete anos, e como todos diziam, era do "balacobaco".

Pronto o material, abrimos a portinha lateral da garagem. Era a inauguração da exposição. Meu primo Antonio Carlos ficou como responsável pela bilheteria (nem lembro o quanto pedíamos pelos ingressos). Só sei que o primeiro a pagar e entrar foi meu tio Antonio, a família estava curiosa, reunida no quintal, pois havíamos feito propaganda da exibição.

Dentre os possíveis visitantes, se encontrava a moralista da minha mãe. Assim que o Tio Antonio saiu, espantado exclamou: "Como é que ele sabe que é assim!???

Minha mãe logo tratou de perguntar o que havia lá dentro (pois me conhecia muito bem e sempre dizia que eu era um, mas dava trabalho por dez). Meu tio disse que era uma exposição de mulheres peladas.

Mamãe, pálida que nem papel, já ia se preparar para me dar uma surra. Ela já não gostava que eu desenhasse. Artista plástico, em sua opinião, era profissão de marginal. Mas foi rapidamente interrompida pela minha avó, que quis saber o que acontecia. Ao contarem o que se passara, ela quis entrar na garagem para ver.

Minha mãe bem que tentou impedir, pois minha avó era uma mulher religiosa, e certamente não iria entender aquilo que minha mãe antecipadamente já estava taxando aos brados de "pornografia". Mesmo assim, minha avó quebrou o cerco, entrou, permaneceu alguns minutos lá dentro.

Ao sair, se dirigiu a minha mãe dizendo: "Odila, você que é uma mulher tão bem nascida, nunca ouviu falar em nu artístico? A Capela Sistina está repleta deles. Nem pense em bater no menino, pois antes de ser seu filho ele é meu neto. Você precisa entender que ele é um artista". Em seguida, se dirigiu a mim e continuou: "Paulo, se ela levantar um dedo para te bater, me conte. Vou ter uma conversa muito séria com ela!".

Neste momento preciso ressaltar que a vovó não era uma mulher estudada, Potendina (de Potenza, próximo a Nápolis) falava com um forte sotaque e era extremamente boa e religiosa. Mamãe nem sequer pensou em discutir, pois todos amavam aquela senhora, muito bonita, sem rugas, de cabelos grisalhos enrolados em um coque, bem disposto em sua nuca, e com um coração maior que o universo.

Assim, momentaneamente, fui salvo de uma tremenda surra e de um vexame público-familiar. Digo momentaneamente, pois nem é preciso dizer que quando chegamos em casa, na Rua das Camélias, apanhei caprichosamente com a seguinte recomendação: "Nunca mais me faça passar por essa vergonha e, principalmente, não fale dessa surra para sua avó". Coisa que, para evitar maiores problemas, obedeci sem pensar.

E assim aprendi que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

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