Minha Amoreira

Ela ficava no quintal ao lado da casa, seus galhos se estendendo para a rua. A casa era grande, com porão, um galinheiro, de onde todas as manhãs conseguíamos alguns ovos, e uma pereira ao lado do tanque de lavar roupa. Da pereira tirávamos algumas peras duras, que meus primos e eu tentávamos vender aos passantes para fazer uns cruzeirinhos. Porém a amoreira era a nossa verdadeira amiga.
Do alto de seus galhos brincávamos de perdidos na floresta, de fadas e de macacos. Quando as frutinhas apareciam, quase não conseguíamos esperar que amadurecessem, a gente comia assim mesmo, ainda vermelhinhas. As que conseguiam amadurecer, porém, eram transformadas em geléia no fogão a lenha da minha avó ou em suco que fazíamos ali mesmo embaixo da árvore e bebíamos de um canecão de lata. Das folhas fazíamos vestidinhos improvisados para as bonecas, ou ainda serviam como ‘couve’ para a comidinha quando a gente brincava de casinha. Um pouco mais tarde, era do alto da amoreira que eu esperava o menino da casa de frente voltar da escola, escondida entre as folhas para que ele não soubesse da minha paixão.
A gente amava a amoreira. Até abraçada e beijada aquela árvore foi.
Só das formigas que disputavam território conosco nos galhos é que não gostávamos! Cada picada!
Um dia, mudamos da casa ao lado da casa de minha avó, onde a amoreira ficava. Adolescentes, esquecemos da nossa árvore, viajamos, namoramos, e um dia, voltando à casa já vazia, sem a vovó na porta, lembrei da amoreira no quintal. Que estranho, como o quintal era pequeno! Como nos parecia imenso no passado!
E a amoreira? Só um toco no chão. Alguém, ainda hoje não sei quem, resolveu que a árvore era um estorvo, que teria que ser cortada.
Sentei sobre este toco de passado e aí sim as memórias voltaram bem vivas. Nunca esquecerei de você, velha árvore fazendo sombra a uma rua de São Paulo, minha amoreira.

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