Meus anos dourados na Rua Hermínio Lemos – Cambuci

Meu nome é Carlos, e hoje tenho 54 anos de idade, e sou avô há nove meses. Não mais moro no Cambuci, nem em São Paulo, mas de onde moro (São Bernardo), posso ver as luzes das antenas da Paulista à noite, e também o Pico do Jaraguá, mais distante. Não consigo ficar longe de São Paulo.

Não dá para ficar indiferente aos relatos que li neste espaço, particularmente aqueles referentes ao Cambuci, afinal, vivi minha infância aproximadamente na mesma época em que os demais protagonistas também viveram.

Eu morava também em frente ao Instituto Aché, num conjuntinho lindo de dois pequenos prédios de dois andares na esquina da Lacerda Franco com a Rua Hermínio Lemos – desde 1959 até 1967.

Lembro-me perfeitamente dos vizinhos – Dona Hercília, Dona Iracema, Sr Francisco, Tereza Cristina, e outros nomes que me escapam à memória.

Sempre que posso, e geralmente só, pego meu carro e vou até ali. Não sei dizer se o sentimento que me invade é de tristeza, saudade ou alegria. Penso que na evolução da vida, sempre deixamos coisas para trás, e estas coisas sempre são marcantes e sempre as queremos de volta, mesmo sabendo que isto é impossível, pois é uma lei natural da vida.

Já entrei na área interna dos prédios para ver como estão hoje, e me decepcionei. As áreas de serviço dos apartamentos, que eram abertas, hoje estão fechadas com tijolos, mas a frente deles ainda é a mesma.

Minha mente recua muito no tempo. Mentalmente revejo o vendedor de algodão-doce com sua carrocinha que vinha pela Lacerda Franco; o peixeiro com sua carroça puxada à mão; o verdudeiro com uma carroça de quatro rodas e lona como se fosse aquelas caravanas de filmes de faroeste; o vendedor de quebra-queixo com sua forma de alumínio coberta com uma toalha e um machadinho para cortar o doce…

Lembro-me do afiador de tesouras e facas com sua bicicleta-oficina que toda semana passava por ali, e também do padeiro com um velho furgão fechado verde claro trazendo as "bengalas d'água".

Vejo-me olhando as nuvens no céu, os poucos carros passando, o pôr-do-sol na direção da fábrica da Brahma… Minhas idas à farmácia do Dr. Agripino na Hermínio, do outro lado da Lins.

Lembro-me, também, com muito carinho do Dr. Paulo Hirata, meu dentista, que tinha consultório na Lacerda. Lembro-me do Largo do Cambuci, do Peg-Pag, da Atlas (loja de componentes elétricos), da Casa Lucilo (que está lá até hoje), da ótica Impala, da Drogaria Mesquita na Lins, e muitas outras referências que fizeram história. Eu ficaria aqui escrevendo o resto da noite, mas em breve voltarei para continuar a compartilhar minhas memórias com outros amigos.

Adorei a iniciativa deste site. Nosso povo precisa preservar as memórias de um tempo que as novas gerações não viveram, mas que seria maravilhoso se elas pudessem.

No dia em que eu deixar esta vida, certamente as imagens daqueles tempos irão me acompanhar.

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