Meu vizinho músico

O tamanho da fábrica era enorme. Era quase que meia quadra onde ficava a Fábrica de Doces Paris. Esquina da Rua da Gaivota e Avenida Macuco, em Moema. Esses nossos vizinhos descendentes de italianos trabalhavam diuturnamente no negócio e também moravam lá. O velho pai administrava tudo, enquanto seu filho mais velho fazia entregas dos produtos em toda a região, nos bares, padarias e as "vendas" da época.

Mas o filho mais novo, o Décio, esse não era muito do negócio. Seu negócio era outro. Era música. Com indiscutível talento, logo cedo foi encaminhado para o Conservatório Dramático e Musical, que ficava no centro da cidade, na Avenida São João, bem em frente à lateral do Correio Central.

Não demorou muito e as aulas de violino começaram a deixá-lo entediado, pois muito solfejo e história da música pouco lhe interessava, o negócio era tocar bandolim e de lá tirar as lindas valsinhas e chorinhos, e foi isso que aconteceu.

Não demorou muito e o Conservatório era coisa do passado. Juntou um amigo no acordeòn, outro no violão para acompanhamento e pronto, estava formado um pequeno "regional", como se dizia na época.

Dessa rapaziada ouviam-se as mais lindas músicas. Os ensaios iam até tarde da noite e, para minha tristeza, minha mãe me chamava sempre antes do término desse momento mágico de músicas inesquecíveis.

Já se passaram cinquenta anos e ainda sou capaz de ouvir trechos dos chorinhos, e muito zangado indo embora, pois minha mãe acabara de me chamar. Amanhã, era preciso acordar cedo. Tinha que ir para a escola.

Quanto a mim, vou terminando por aqui também, pois estou saudoso deste tempo passado e meus olhos ficaram marejados.

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