Meu tio Zeca, meu filho Julio Cesar e o Corinthians

Esta história tem muito a ver com o corintianismo de minha família e, de maneira mais contundente, com meu filho mais velho, o Escrivão de Polícia e advogado, Julio Cesar Prates Leme de Souza. Mas, antes de começar, deixe-me contar uma história dentro da história…<br><br>Ano de 1920, um feriado e aquele que, nos anos 40, viria a ser meu tio postiço (in pectore), vem conhecer São Paulo com alguns amigos. Desembarcam na Estação da Luz, tomam café na Rua Mauá e ficam rodando por ali. Tiram fotos com os lambe-lambes do Jardim e começam a conjeturar o que fazer em seguida.<br><br>Como nenhum deles conhecia a cidade e tinham medo de se perder, houveram por bem, então, acompanhar os trilhos dos bondes até o centro… "Qualquer problema, é só pegar os trilhos de volta e pronto! Estamos na Estação de novo".<br><br>Mas não foram muito longe. Notam que há uma movimentação muito grande de pessoas dirigindo-se para a José Paulino. "O que é que está acontecendo? Greve? Passeata? Cadê a Força Pública?" É procissão?"… "Não, moço! É o Corinthians que vai treinar contra um time do Bom Retiro", alguém informou…<br><br>Resolvem, então, assistir ao jogo num campo aberto, às margens do Tietê. Ultra amadores, os craques, à medida que se cansavam, saiam de campo e convidavam alguns espectadores para jogar também. Meu tio foi um dos convidados. Não teve dúvidas: tirou os sapatos, o paletó, a camisa, a gravata, deu a palheta para um dos amigos e entrou em campo com as calças arregaçadas até os joelhos.<br><br>Fez umas gracinhas com o capotão, deu um "drible" ou dois, chutou a gol, deu umas corridinhas e o jogo acabou. Aí vem a melhor parte: o Neco veio em sua direção, colocou amigavelmente a mão em seu ombro e disse:<br>- Menino, até que você joga bem! Pena que você é franzininho e tem a mania de chutar de "chapa"; tem é que chutar de bico, pôr força na bola… “Me dá” um abraço, santista!<br><br>Foi o quanto bastou! Daquele dia em diante, meu tio Zeca tornou-se o corintiano mais ferrenho de toda a baixada santista; mesmo trabalhando no jornal "A Tribuna", um ninho de torcedores e diretores do Santos…<br><br>Ano de 1975. Meu tio Zeca e minha tia Maria vêm a São Paulo fazer-nos uma visita. Os dois estão bem velhinhos, cabelos brancos, movem-se lentamente e com dificuldade. Após o jantar, ficamos na sala conversando; ele me fazendo perguntas sobre a família e contando "causos" de sua vida, do racismo de um determinado time da cidade de Santos que, ainda varzeano, não jogava contra times de negros e estivadores, especialmente contra o time que ele fundara, o África Football Club, que disputava seus jogos na praia do Embaré, em 1915 ou 16, ele não lembrava muito bem do ano de fundação.<br><br>Lá pelas tantas, meu filho Júlio vem se despedir para dormir; na ocasião o Júlio tinha quatro para cinco anos e não se interessava por futebol, embora eu o tivesse levado algumas vezes ao Pacaembu para ver o Corinthians. Como dizem os mineiros, minto… O Julio no Pacaembu ficava muito interessado no sorveteiro, no pipoqueiro, no Morais que vendia doces para o Schiavone, em tudo relativo à comida e refrigerantes, menos no Timão…<br><br>Pois é, o Júlio vem se despedir, mas não vai embora pro seu quarto. Senta-se ao lado de meu tio e fica ouvindo, quietinho, histórias e mais histórias sobre o Corinthians até que, bem tarde, já madrugada, não aguentando mais, dorme com a cabeça apoiada em seu peito…<br><br>No dia seguinte, à tardinha, fui levar meus tios in pectore na Estação Rodoviária da Júlio Prestes. Fiz um caminho alternativo, pois eles queriam ver a casa onde moraram na Caio Prado em fins dos anos 20, numa tentativa de se estabelecer em São Paulo. Evidentemente a casa não existia mais…<br><br>Dias depois, o telefonema: “Ignacio, venha depressa, seu tio Zeca morreu!”. Consternação em minha família, claro. Meu tio foi enterrado no Saboó e levou consigo uma bandeira do Corinthians e uma foto tirada no Jardim da Luz, 55 anos antes…<br><br>Algumas semanas depois, o Corinthians perde um jogo de campeonato e o meu filho começa a chorar desesperadamente. O radinho de pilha que ficava em seu quarto, ele espatifa contra a parede. Minha esposa, Odete, procura acalmá-lo e leva muito tempo até que ele entenda que esporte é esporte e que o mundo não iria acabar por causa de uma derrota.<br><br>Quando chego do trabalho, ela me conta o que aconteceu, olha nos meus olhos e, muito séria, diz:<br>- Ignacio, tem certeza que o tio Zeca morreu? Acho que<br>ele veio ouvir o jogo com o Júlio e parece que ele vai ficar com ele para sempre…<br><br>O Júlio e todos os meus filhos e netos são corintianos por atavismo, e meu pessoal lá de Santos, Rua João Guerra, 107, no Macucão, como diria Plínio Marcos, também. <br><br>José Érico do Nascimento (Zeca), descanse em paz.<br><br>E-mail: [email protected]