O meu herói é muito melhor que o Super Homem, pois ele não é dotado de superpoderes, mas simplesmente um homem comum que marcou a vida de toda a família com sua personalidade ímpar.
Sem fotos dele, sempre procurei fazer uma imagem mental a partir de como o descreviam. E, um dia, ali na entrada de Vinhedo, naquele monumento de homenagem ao imigrante, "vi" meu bisavô. Toda vez que passo por lá, presto-lhe a minha homenagem e recordo seus feitos.
Falo do meu bisavô austríaco – Giuseppe Casteluber – que chegou ao Brasil em 1888, oriundo do Tirol, com esposa e nove filhos, já com sessenta anos de idade e com o objetivo de ter sua terra, pois no seu país a posse era exclusivamente dos nobres.
O primeiro contato dele com a nossa cidade foi na Hospedaria dos Imigrantes, hoje um Museu. Lá obtive a Certidão de Desembarque com o nome do navio Fortunata, a data e a relação dos que aqui aportaram após a longa viagem. Foi uma grande emoção para mim, sempre interessada na história da família.
A minha infância foi embalada pelos casos que eram contados pelos: avó, pai, tios e tias, que sempre serviram de encanto e exemplo. Relatei tudo em um texto que chamei de "Anotações de um sonhador" ao qual dei a forma de um diário supostamente escrito pelo meu antepassado.
Transcrevo um pequeno trecho:
“Ano de 1900 – Estou trabalhando na minha terra. Que satisfação!
Voltei finalmente à cultura das uvas e a fazer vinho, mas também tenho tudo no sítio para nosso uso, seja planta, seja criação. Só não consegui pêssegos bonitos como na Europa. Tomei todos os cuidados, mas eles aparecem bichados sem que eu consiga impedir. Meu vinho está ficando conhecido. Embora com produção pequena, forneço para pessoas importantes de São Paulo.
Ano de 1904 – Meus filhos estão com idéias diferentes. Falaram tanto, tanto, que para ter sossego, resolvi vender a minha safra de uvas deste ano no pé, para comerciantes do mercado da capital. Dizem que vou ter menos trabalho e lucrar mais. Dentro de algumas semanas, mandarão homens para a colheita e o transporte. Vamos ver no que vai dar!
– Hoje, após passar por uma situação horrível, estou me sentindo muito bem.
Fui acompanhar o serviço do pessoal do mercado e presenciei uma cena
dantesca: eles arrancavam a minha uva de qualquer jeito, jogavam em caixas de madeira e martelavam as tampas brutalmente, machucando aqueles lindos frutos.
Aguentei aquilo por muito pouco tempo, embora meus filhos tentassem me segurar dizendo que elas não eram mais nossas, que já estavam vendidas e pagas.
Expulsei a todos, devolvi o dinheiro. Chamaram-me de louco, mas estou satisfeito. Que Deus me perdoe a ousadia, mas a minha indignação deve ter sido parecida com a de Jesus ao expulsar os vendilhões do templo. Na minha frente, ninguém vai desrespeitar os frutos desta terra generosa. Lucro não é, definitivamente, o mais importante."
Por essa pequena amostra, vocês entendem porque ele é o meu herói?
Em tempo: Se alguém quiser ler a história toda, é só me mandar um e-mail.